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Número 772,

Sociedade

Refogado

Gaetano!

por Marcio Alemão publicado 27/10/2013 09h39
O afeto capaz de preencher o espaço entre a vida e a morte
AFP
Refogado

Destino. "Filho da Azeitona? Então, por que não Tremoço?"

Teve até champanhe na sua chegada. Estávamos no dia 18 de julho de 1967.

Nasceu tropeçando em suas pernas, todas as quatro.

Nasceu todo melecado, mas a Azeitona, mãe zelosa, tratou de lambê-lo até que se tornasse apresentável para aquela quase dúzia de curiosos.

– Essa vaca é brava, mas há de ser boa mãe.

– Se der menos de 20 litros, eu chuto o balde.

– E o rapazinho vai ganhar que nome?

Essa discussão não se resolveu na pressa. Um achava que tinha cara de Tibúrcio.

– Ninguém tem cara de Tibúrcio.

– E por que não Tremoço? Filho da Azeitona!

Saber que tremoço e azeitona faziam parte de uma mesma família foi revelador. E não? Ambos crescem em árvores e depois passam boa parte da vida amadurecendo em tonéis de água com sal até que alguém os leva para um outro lar.

– Gaetano!, disse o cunhado da minha avó, e eu achei que ele estava vendo alguém que ninguém mais via. Tio Ezzio caducava.

– Por que o marido da tua irmã não fica quieto? O meu avô perguntou e tia Lidia ouviu, levantou-se da mesa e falou em prantos (era dramática a Tia Lidia).

– Ele quer ajudar, você não entende? Ele quer fazer parte dessa família, nem que seja dando o nome ao bezerro. Mas você nunca ouviu ele. Você sempre odiou ele!

Nesse dia, 18 de julho de 1967, Lidia fez as malas, pegou o Ezzio e foi embora. No fim daquele dia, depois de fumar um charuto baiano, meu avô disse:

– Que seja Gaetano.

Ficamos amigos, eu e Gaetano. Passava horas perto dele, quando não estava com a mãe, que, sabemos, era brava.

Mugia de maneira doce. Às vezes, do nada, corcoveava. Era divertido ver.

– Você gostaria de ser um touro de rodeio?

– Me disseram que o ambiente é meio esquisito. Só touros e que chega a rolar... você sabe.

– Você pode ficar famosão. Ainda mais com esse nome.

– Quem inventou?

– Tio Ezzio.

– Não sei ainda o que fazer da vida. Tô cheio de dúvidas. Ser um tapete, um pufe... quem sabe virar churrasco. E quando eu me for, escreve minha biografia. O carrapato de minha orelha é testemunha de que estás autorizado.

As férias acabaram no dia 30 de julho de 1967. Voltei para a cidade e cinco meses depois aconteceu o que Gaetano chegou a cogitar.

Comemos o Gaetano no churrasco do dia 24 de dezembro de 1967. Tio Ezzio morreu dia 22 de janeiro de 1968, repetindo o nome Gaetano. Ninguém soube por quê. Meu avô desconfiava.

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