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Número 771,

Internacional

Ásia

O país do medo e seus horrores

por Gianni Carta publicado 19/10/2013 09h50, última modificação 19/10/2013 11h45
Os fatos e um livro provam que o Paquistão é o lugar mais perigoso do mundo. Por Gianni Carta
AFP

O Taleban do Paquistão continua sua carnificina contra os contraventores da sharia, as rígidas leis islamitas estabelecidas pelo Alcorão. A despeito do novo premier, Nawaz Sharif, líder da legenda islâmica Liga Muçulmana do Paquistão (PML-N), eleito em maio passado. Sharif saiu-se vencedor em grande parte pelo fato de propor uma negociação com o Taleban do Paquistão, mais conhecido como Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP). Esperava-se chegar a um compromisso, e a sharia, diga-se, não parecia fazer parte dos planos de Sharif. Mas, até agora, nenhum acordo foi selado. E dificilmente será.

O PML-N, na verdade, parece não ter influência alguma sobre o TTP. Em 22 de setembro, para citar uma atrocidade cometida pelo Taleban paquistanês, dois homens-bomba detonaram seus coletes de explosivos na All Saints Church, em Peshawar, uma das quatro províncias do Paquistão. Deixaram, entre 600 cristãos, minoria no país, 85 mortos e centenas de feridos. O TTP alega que foi obra de um dos 30 grupos sob sua liderança, mas não a mando do Taleban.

Para os ocidentais, inclusive jornalistas, como este que cobriu as eleições em maio, o Paquistão é o país mais perigoso do mundo. De saída, os profissionais não podiam trafegar sem seguranças. Pelo menos dois barbudos com faces de tempestade e com Kalashnikovs engatilhadas exigiram que este repórter parasse de tirar fotos nas ruas.

Durante a campanha eleitoral, mais de 160 pessoas, entre políticos e civis, foram assassinadas, dezenas delas em Karachi. Legendas islâmicas se opunham ao voto feminino. Colégios eleitorais estiveram fechados, ou foram bombardeados durante o pleito. Houve brigas diante de óbvias tentativas de manipulação. O Paquistão, à revelia de a chamada “comunidade internacional” ter concluído que o voto foi democrático, é um caos.

É o que nos confirma Christophe Jaffrelot em seu novo livro intitulado Le Syndrome Pakistanais (Fayard, 664 págs., 30 euros). O Paquistão, que dispõe da bomba atômica, mantém desavenças graves com a Índia desde a partição do subcontinente indiano em 1947. E Nova Délhi não é uma rival como qualquer outra, desde que também dispõe de poderes nucleares. De maioria sunita, o Paquistão sofre por ter perdido o controle da Caxemira para a Índia, e mais o fato de Bangladesh ter-se tornado independente, em 1971, com a ajuda da Índia. O Paquistão é terra de grandes traumas. Sua curta história é pontuada por quatro golpes militares. Houve assassinatos como a da ex-premier Benazir Bhutto, em 2007, filha do ex-premier Zulfikar Ali Bhutto, executado pelos militares em 1979. O marido de Benazir, Ali Zardari, presidente do Paquistão até o último pleito, foi acusado de corrupção e homicídios. O país é dominado por corrupção, clãs e golpes de Estado.

Não ajuda, é claro, o fato de o Paquistão estar envolvido na guerra e na saída iminente dos EUA do Afeganistão, marcada para 2014. Na verdade, a ruptura entre a Islamabad e Washington deu-se quando os americanos mataram Bin Laden, trágico vilão criado pela parceria do ISI, serviço de inteligência paquistanês, com a CIA. “Eles não nos avisaram que matariam Bin Laden”, me disse uma fonte paquistanesa no clube de jornalistas de Karachi. Mas, em Abbotabad, a 60 quilômetros de Islamabad, os oficiais aposentados não estavam cientes da existência de Bin Laden nas cercanias? “Mesmo assim, um acordo deveria ter sido concluído”, retrucou a fonte.

Em miúdos: a relação entre Washington e Islamabad é tensa. A vitória de Sharif, o primeiro premier a fazer a transição de um governo civil a outro desde a criação do Paquistão, parecia dar sinais de que o país estava em vias de se democratizar.  Ademais, Sharif propunha negociações com o Taleban.

Sharif, de 63 anos, é apreciado pelo mundo ocidental por ser um neoliberal. Por sua vez, os líderes e filiados de agremiações muçulmanas também o admiram. Na sede do Jamaat-e-Islami, disse o doutor Merja Ul-Huda Siddiqui: “Nós queremos um governo islâmico, baseado na sharia, mas eleito de forma democrática”.  Argumentei que sua agremiação tem elos com a Irmandade Muçulmana no Egito – e as coisas não iam nada bem por lá. “É preciso dar tempo ao tempo. As legendas liberais corruptas são criminosas.” Siddiqui citou o caso do então presidente do Paquistão, Ali Zardari, que passou 11 anos preso por corrupção, tráfico de drogas e até por supostos homicídios.

O Taleban no Paquistão, inclusive Siddiqui, parecia simpatizar com dois políticos, Sharif e Imran Khan, o ex-campeão mundial de críquete em 1992 que lidera o Movimento pela Justiça do Paquistão (PTI), visto que ambos eram contra os teleguiados norte-americanos a matar civis no Afeganistão e no Paquistão. Mais: nenhum dos dois políticos pretendia ser fantoche dos Estados Unidos. Como Sharif, Khan alegava que o Taleban não era meramente um movimento religioso, e sim uma organização de defesa de seus territórios.

O quadro não é tão simples quanto alguns pretendem. Hakimullah Mehsud, líder do Taleban paquistanês, por cuja cabeça os EUA oferecem 5 milhões de dólares, quer impor a sharia. E o que dizem Sharif e Khan a respeito da sharia? E é possível lidar com Mehsud, a quem estão ligados cerca de 30 grupos jihadistas, os quais, de fato, ele controla precariamente?

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