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Número 771,

Cultura

Cariocas

Lembranças de Norma

por Carlos Leonam — publicado 19/10/2013 09h50
Ao filmar na Sicília, com Lattuada, ela virou a cabeça do capo mafioso local. Que mandou saber qual era o preço dela
Carlos Leonam
Norma Bengell

II Mito. No estúdio vizinho à Via Appia, todas as lentes se voltavam para Norma

Houve um tempo em que convivi com Norma Bengell, recentemente falecida. Foi nos anos 60, a partir de 1963, há 50 anos. Eu a conhecera no ano anterior, em Cabo Frio, onde filmava Os Cafajestes, de Ruy Guerra, em que aparece nua, correndo pela praia do Peró, depois de uma cafajestada armada por Jece Valadão. Eu fora lá pesquisar para um texto encomendado pela Senhor – seria Cabo Frio uma futura Saint-Tropez? Acabou sendo, não Cabo Frio, mas Armação dos Búzios, seu distrito. Escrevi, entre outras comparações, que faltava uma Brigitte Bardot, para que se pudesse ser “tropeziano em Cabo Frio”.

O resto é história: BB apareceu mesmo em Búzios, em 1964, levada pelo namorado Bob Zaguri, e o vilarejo de pescadores virou, em pouco tempo, a badalada Búzios. A hoje cidade, entre outras homenagens à sua, digamos, madrinha, tem até uma estátua de Brigitte, que nunca mais apareceu.

Bem, voltemos a Norma Bengell. Depois de fazer sucesso, também, como uma das primeiras cantoras da bossa nova, partiu para a Itália, onde atuou em vários filmes. Foi em Roma que a reencontrei, convivendo muito, depois, no verão carioca de 1964 e até o casamento dela acabar.

Em Roma, morava num velho palazzo às margens do Tibre, o mesmo que abrigou Brigitte Bardot, quando fez O Desprezo, de Godard. As duas nunca se cruzaram. O que teria sido, pelo menos, engraçado, já que a brasileira fizera uma imitação de BB em O Homem do Sputnik, de Carlos Manga.

Norma se casara com o jovem ator Gabrielle Tinti – que poderia ter feito uma carreira melhor, se uma briga com Luchino Visconti não lhe tivesse fechado as portas de produções mais sérias, até morrer em 1991, aos 59 anos.

Os dois se separaram em 1966, quando Gabrielle, que filmava na França, soube – ao ler, em Paris, numa coluna social de O Globo – que Norma andava namorando um jovem e talentoso compositor carioca. – “Fique onde está.” – foi o telegrama que mandou para o Rio. Ela me disse que continuaram amigos, mas o encanto havia acabado. E que encanto.

O filme mais conhecido (e o melhor) que Norma fez no cinema italiano foi Mafioso, de Alberto Lattuada, ao lado de Alberto Sordi. As locações foram na Sicília e a brasileira virou a cabeça do capo mafioso local. Tanto que mandou um recado para Lattuada: “Quanto è l’attrice?” (“Quanto custa a atriz?”)

Na mesma ocasião, Visconti lá filmava O Leopardo, com Burt Lancaster, Claudia Cardinale e Alain Delon. Todos no mesmo hotel, e não deu outra: Delon e Norma começaram a namorar às escondidas, para ciúme de Sordi, que descobriu o caso. Detalhe: Delon à noite ia para o quarto dela pulando a janela, que dava para um jardim.

Ainda em Roma, Norma, que filmava Il Mito, de Adimaro Sala, me convidou para ir ao set, nos arredores da Via Appia. A sequência daquele dia mostrava Bengell dançando nua.  Fotografei-a para O Cruzeiro e vi um iluminador ser expulso do set, por exclamar, ao vê-la pelada: “Quanto sei bona!” (“Você é muito boa!”)

Essas são algumas das velhas recordações que tenho de Norma Bengell. Sei de muitas, muitas outras. Mas, como disse Álvaro Moreira, “as amargas, não”.

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