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Número 771,

Cultura

Música clássica

Cenas de uma ópera-bufa

por Ana Ferraz publicado 04/11/2013 05h55, última modificação 06/06/2015 18h09
Formação deficiente, falta de incentivo e de respaldo cultural relegam intérpretes ao abandono
Jonas Tucci
Barítono

O barítono Neiva: entusiasmo em Don Giovanni

Na recente temporada paulistana de Don Giovanni, em setembro, a bela voz de Leonardo Neiva ecoou cálida e firme pelo Theatro Municipal. No papel-título da famosa ópera de Mozart, o barítono de 36 anos reafirmou as qualidades cênicas e vocais que o colocam entre os mais requisitados cantores líricos no Brasil e exterior. Fora do ambiente em que cada vez mais se destaca, Neiva enfrenta prosaica situação. “No meio secular sou visto quase como um extraterrestre.”

Para evitar o habitual desgaste de explicar o que faz e notar indisfarçável descrença do interlocutor (“fala sério, você vive disso?”, costuma ouvir), não raro Neiva assume o avatar de administrador de empresas, mais palatável a determinados círculos sociais. “A maioria acha que viver de arte só é possível para quem faz sucesso na tevê ou é cantor pop famoso. É compreensível. A música clássica precisa ser democratizada, levada para as ruas.”

Neiva iniciou os estudos musicais aos 6 anos, estimulado pelo ambiente propício em casa e pela comunidade religiosa à qual pertence. “Grávida, minha mãe ouvia a Nona Sinfonia, de Beethoven. Dizia que a música fazia com que ela ficasse calma e eu também.” Dos intérpretes do rádio que imitava aos instrumentos improvisados com latas, o brasiliense alicerçou a carreira de cantor gospel, iniciada aos 14 anos, e cantor lírico, aos 21 anos. Fundamental para a profissionalização foi a Escola de Música de Brasília; aperfeiçoar-se em Milão, inevitável. “O modelo de estudo aqui é muito antigo e voltado para a docência, não para a performance. Ser cantor lírico envolve muitos fatores além de aprender a ler uma partitura. Os cursos deveriam espelhar-se nos oferecidos pelas universidades americanas ou pelos conservatórios europeus.”

O barítono, que em novembro participa da temporada da ópera Billy Budd no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, critica com veemência a falta de uma política nacional de incentivo. “O estímulo vem de professores guerreiros, que lutam para dar aos alunos oportunidade em pequenas montagens. Comecei assim.”

Iniciativa recente que Neiva torce para vicejar é a Fábrica de Óperas, criada pelo maestro Abel Rocha, do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Em resposta à grande demanda por cursos de formação, o projeto desenvolvido na disciplina optativa Ópera Performance congrega alunos de canto, regência e piano, licenciatura em artes cênicas e música, e doutorado em artes cênicas. O 1º Festival Fábrica de Óperas, realizado de 11 a 13 de outubro, mostrou o resultado do trabalho em que 25 artistas interpretaram 40 personagens em seis óperas. “Cada personagem foi preparado por dois cantores, todos estudaram de três a cinco papéis e cada diretor se incumbiu de três títulos, num exercício de maleabilidade de gênero”, conta Rocha.

O respaldo cultural jamais obtido no Brasil o talentoso Paulo Szot encontrou na Polônia, terra natal de seus pais, que desde a infância incentivaram seus estudos de piano, violino e balé. Aos 18 anos ganhou uma bolsa do governo polonês para a Universidade Jagiellonski, onde pretendia se aperfeiçoar em dança. Sem dinheiro para uma passagem convencional, foi de navio cargueiro. O sonho se despedaçou pouco depois, ao machucar o joelho, e os palcos só não perderam um intérprete de grande versatilidade e forte presença cênica porque um atento professor notou sua qualidade vocal.No segundo ano de estudos, Szot conseguiu o primeiro emprego como cantor num coro da companhia estatal. Aos 21 era solista.

“Na minha época de estudante no Brasil, canto e música eram considerados hobby. Nenhuma daquelas tabelas de profissões trazia as opções músico ou bailarino. A forma séria como alguns países tratam a profissão de artista pode ser definitiva”, atesta o barítono, que, aos 44 anos, acumula sete prêmios, entre eles o Tony de melhor ator em musical. A distinção máxima do teatro americano surpreendeu o brasileiro, que, em 2008, venceu a forte concorrência e pôs Nova York a seus pés ao interpretar na Broadway o papel principal de South Pacific. “Ganhei todos os prêmios de melhor ator, nem acreditei. Era improvável. Deveríamos ficar em cartaz três meses, permanecemos dois anos e meio.”

Quando se deu a consagração na Broadway, inédita para um brasileiro, o barítono havia brilhado nos principais palcos internacionais de ópera. Das estreias em São Paulo (O Barbeiro de Sevilha) e Nova York, New York City Opera (Carmen), em 1994, a Paris, Opera Garnier (Così Fan Tutte), 2011, colheu elogios de especialistas e admiração de espectadores. Numa resenha, o crítico de música do New York Times se referiu ao intérprete como dono de “uma voz arrebatadora, extensa e profunda”.

Szot, que escolheu Nova York para viver, ressente-se de, no Brasil, a ópera se restringir “ao Municipal de São Paulo e do Rio e a momentos isolados em Belém e Manaus”. “Na Europa, sempre há apoio do governo. Nos EUA, as fontes de arrecadação são doações privadas, é um business, e o Metropolitan está sempre lotado. No Brasil é difícil, porque tudo depende das próximas eleições. Manter a continuidade é um desafio, pois às vezes quem vem destrói tudo o que foi feito.”

Para o barítono carioca Homero Velho, 41 anos, a cena lírica caminha “aos trancos e barrancos”. Assim como Szot, critica a dependência dos teatros de cargos políticos. “Não há uma política federal ou estadual, o que existe é uma total incerteza. Os teatros não se falam, as produções não circulam.”

Estudar nos Estados Unidos facilitou o acesso de Velho ao mundo operístico. “Estava no coral da escola quando comecei a avaliar a possibilidade de me tornar cantor.” De acordo com ele, não há como comparar o estudo de canto oferecido no Brasil e nos EUA. “Só na Universidade de Indiana há 2 mil alunos de música, 400 de canto. O teatro de ópera da universidade tem oito produções por ano com orquestra, cenário, figurino.”

O respeitado baixo-barítono carioca Licio Bruno, 25 anos de sólida carreira internacional, lança olhar experiente sobre a formação no Brasil. “É pequena e deficiente em termos de material, instalações e outras condições essenciais, pois quem estuda canto deve se dedicar também à expressão corporal, ao teatro, ao estudo de idiomas. O ideal é terminar o estudo básico aqui e fazer pós ou mestrado no exterior”, diz o intérprete, que se aperfeiçoou em Budapeste.

Com currículo referendado por interpretações marcantes em óperas como A Flauta Mágica, Madama Butterfly, O Barbeiro de Sevilha, e primeiro brasileiro a encarnar o deus Wotan em A Valquíria, Bruno lamenta a falta de estímulo ao aprimoramento. “Os jovens estão à mercê da sorte. O canto lírico é um universo quase abandonado em termos de iniciativas governamentais e privadas.”

“Estabilidade só existe se você mora na Alemanha e tem contrato fixo em teatro ou pertence a um coro profissional”, afirma a mezzosoprano Luisa Francesconi, que após se formar na Escola de Música de Brasília se aperfeiçoou em Milão. Para a jovem intérprete, viver do canto é para poucos. “Fazemos bicos, damos aulas particulares, alguns cantores têm até outra profissão.”
Nascida em família de músicos e cantores, Gabriella Pace vive há dois anos na Dinamarca. Ao olhar para o cenário nacional, identifica “pouco incentivo e patrocínio, pouca disponibilidade de espaços e muita burocracia”. A soprano considera a profissão difícil mesmo em países que valorizam a arte. “O caminho é cheio de espinhos, o que vale a pena é a imensa realização que proporciona.”

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