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Número 770,

Cultura

Memória

Olhos de cinema

por Rosane Pavam publicado 04/11/2013 11h41
A atriz Norma Bengell uniu a intensidade à beleza em sua arte de interpretar
Divulgação
Norma

O paraíso perdido. norma Bengell em "O Mafioso", 1962

Norma Bengell falava com os olhos, grandes como o cinema. E o seu era um olhar dedicado a dizer não, como na sequência inicial de O Mafioso, no qual percorria a Sicília, em 1962, para comentar: “Claro, a Itália acabou”. Tais olhos da atriz, cujo prenome encerra uma ironia, fecharam-se dia 9, no Hospital Rio-Laranjeiras, em Botafogo, depois de seis meses, nos quais, aos 78 anos, ela sofreu um câncer de pulmão que decidira não tratar. Presa a uma cadeira de rodas, o braço direito paralisado e sob a assistência de curadores, pagava as contas com a ajuda ocasional dos amigos. A atriz que trabalhara para o produtor Dino De Laurentiis nos anos 1960 e encenara a cópula com Mick Jagger no burlesco videoclipe She’s the Boss, de 1984, dizia só ter saudades dos tempos em que ainda lhe era permitido caminhar.

Atriz em 64 filmes, atuante no teatro e na tevê, compositora, cantora, detida pela ditadura inúmeras vezes, às voltas com o uso indevido de verbas para O Guarani, que dirigiu sem boa repercussão em 1996, ela vivia agudamente. E assim representava. Era uma atriz de grande beleza, mas também de força e talento, como definiu o amigo Othon Bastos, e intensidade, como a amiga Marília Pêra fez notar.

Tensão, contudo, não parecia ter. Resolvia tudo diretamente com a câmera que puxava para si. Era livre para encenar o excesso, estivesse ele na comédia, nas entrelinhas do tédio, na revolta ou no amor. Parodiou Brigitte Bardot para Oscarito em sua primeira aparição no cinema, O Homem do Sputnik (1959). Com um charuto, encenou os desmandos de poder em O Abismo (1977). Foi desnudada por Jece Valadão frontalmente, pela primeira vez no país moralista, em Os Cafajestes (1962). Com Walter Hugo Khoury, só filosofias.

Quantas revoluções houvesse, pressentiria. Foi menina de Copacabana, filha de mulher de sociedade deserdada pelo amor do imigrante alemão que afinava pianos. Expulsa da escola, contestou a vida na casa dos avós paternos. Chacoalhou a televisão dos tempos difíceis ao dizer, em 1984, que fizera 16 abortos, “saltimbanco por escolha”. Sem filhos, miséria não legada, pediu que suas cinzas fossem jogadas da Pedra do Arpoador.

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