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Número 770,

Economia

A economia engasgada

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 15/10/2013 03h36, última modificação 15/10/2013 03h48
A liquidez abundante nos EUA não fez crescer o investimento das empresas privadas
AFP
EUA

O Partido Republicano poderá paralisar o governo dos EUA e dar o calote na dívida

Olhem ao redor: de há muito e cada vez mais os cidadãos têm suas vidas atormentadas por um séquito de desenganos. A esperança escorre pelo ralo. Exagero? Os fiéis executores das partituras dos mercados prosseguem em sua funérea cantilena de celebração da austeridade.

Vejam os republicanos que vociferam às margens do Potomac. São gênios expelidos da lâmpada esfregada pelos mercados financeiros. Os bacanas de Wall Street abastecem esses serviçais com grana abundante nas eleições. Até o mundo mineral, diria Mino Carta, sabe que um caudal de dinheiro corre para o bolso dos congressistas para patrocinar desatinos e malfeitos.

A finança e seus súditos loquazes falam banalidades para explicar as crises que suscitam, enquanto executam a sua lógica profunda, transformando, sem dó ou piedade, os sabichões de ontem nos nefelibatas de hoje. Seus cúmplices e vítimas de alto escalão executam banalidades, enquanto atormentam cidadãos com a falta de lógica de suas falas.

Ao capitular diante das exigências absurdas de novas rodadas de insanidade fiscal, desfechadas sobre uma economia capenga, os republicanos e seus eleitores comprovam a força das fantasmagorias do mundo imaginado, que bloqueiam qualquer contato com as realidades da vida concreta dos indivíduos.

Nascidos dos escombros da crise financeira de 2008, os programas de facilitação quantitativa, desamparados de uma ação fiscal mais incisiva, não conseguiram tirar a economia do crescimento modorrento. As autoridades monetárias, representando o interesse coletivo, não podem deixar que prosperem e se aprofundem o processo de contágio, a deflação de ativos e a contração do crédito. É necessário que os bancos centrais estejam dispostos, nestas circunstâncias, a prover abundante liquidez para os mercados em crise.

A euforia recente turbinou, porém, os preços nos mercados de ativos (ações, títulos de dívida e moedas dos emergentes), mas não “vazou” para o financiamento do gasto das famílias, ainda em processo de (des)endividamento. A liquidez abundante tampouco impulsionou o investimento das empresas privadas, que apresenta um desempenho pífio no território americano.

Em seu recém-publicado livro The Road to Recovery, o economista Andrew Smithers vai mais fundo no desvendamento das engrenagens da economia financeirizada. Ele demonstra que, no período 1981-2009, o investimento das empresas privadas, calculado sobre o PIB, caiu 3%. Uma tendência de longo prazo. Segundo Smithers, o investimento deixou de apresentar o comportamento cíclico de outros tempos, quando acompanhava as flutuações da economia.

A experiência da crise de 2007 mostra que as injeções de liquidez destinadas a impedir o colapso dos preços e a paralisia dos mercados interbancários contiveram a derrocada dos preços dos ativos, mas não conseguiram reanimar a economia. A visão keynesiana tradicional apoia suas recomendações de política fiscal na possibilidade de a ação do governo vencer a desconfiança e o pessimismo do setor privado. Smithers defende uma tese mais ousada: as últimas décadas mostram uma tendência de apodrecimento dos animal spirits dos acionistas e executivos das empresas americanas. As estratégias financeiras valorizam os ganhos de curto prazo e, por isso, estimulam os programas de buy back de ações (compra das próprias ações com o propósito de valorizá-las e favorecer a distribuição de dividendos).

A relação entre os recursos destinados ao investimento e aqueles utilizados para elevar os ganhos dos acionistas e a remuneração dos administradores (stock options). Nos anos 1960, a cada 12 dólares gastos com compra de maquinas ou construção de novas fábricas, apenas 1 dólar era investido com os dividendos pagos aos acionistas.

Desde as reformas neoliberais dos anos 1980, as empresas ampliaram expressivamente a posse dos ativos financeiros como forma de alterar a estratégia de administração dos lucros acumulados e do endividamento. O objetivo de maximizar a geração de caixa determinou o encurtamento do horizonte empresarial.

A expectativa de variação dos preços dos ativos financeiros passou a exercer um papel muito relevante nas decisões das empresas. Os lucros financeiros superaram com folga os lucros operacionais. A gestão empresarial foi assim submetida aos ditames dos ganhos patrimoniais de curto prazo e a acumulação financeira impôs suas razões às decisões de investimento, aquelas geradoras de emprego e renda para a patuleia

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