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Número 770,

Sociedade

A ciência no pântano

por Thomaz Wood Jr. publicado 17/10/2013 03h24, última modificação 17/10/2013 03h28
Um artifício criativo orquestrado por editores de revistas científicas brasileiras expõe mais uma faceta obscura da academia

O website da revista Nature veiculou em agosto uma reportagem sobre a descoberta de um “esquema” criado por revistas científicas brasileiras para inflar artificialmente seus fatores de impacto, uma medida universal de relevância. As consequências para as próprias revistas e para os pesquisadores que nelas publicaram artigos foram dramáticas. A Thomson Reuters, organização que calcula e divulga o fator de impacto de revistas científicas, suspendeu os periódicos de seus rankings. A Capes, nossa Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, anulou a contagem da produção de 2010 a 2012 das revistas para efeito da avaliação trienal de programas de pós-graduação, com prejuízo para dezenas de pesquisadores. Os fatos ocorridos expõem o estado das coisas no mundo da ciência.

No imaginário popular, a ciência é mistério e descoberta. Os cientistas são admirados pela dedicação ao bem comum, como se fossem um tipo especial de ser humano: inteligentes e altruístas, sempre prontos a colocar a ciência e a verdade acima dos interesses pessoais. Uma visão romântica? É quase certo. Na prática, a ciência está se tornando uma máquina cara e ineficiente, comumente monitorada por uma burocracia autista. E os cientistas se transformam em operários de uma linha de montagem autocentrada, frequentemente insensível às necessidades da sociedade.

A regra da profissão é simples: se você trabalha na AmBev, a cada ano tem de empurrar alguns litros de álcool a mais ­goela abaixo dos consumidores de sua zona de atuação, e se você é um cientista, a cada ano tem de empurrar mais artigos científicos goela abaixo dos editores e avaliadores das revistas acadêmicas do seu campo de estudos. Conforme publica artigos, o operário da ciência acumula pontos, que conferem prestígio, aceleram a carreira e facilitam o acesso a recursos.

O espaço nas boas revistas científicas, contudo, é muito disputado e a maioria dos artigos é rejeitada. Que fazer? A própria comunidade acadêmica encontrou uma resposta: multiplicar o número de revistas. Tal medida é positiva, por abrir espaço para a disseminação do conhecimento. Entretanto, o processo para uma revista científica se tornar importante é árduo. É preciso atrair bons autores e trabalhos relevantes. A evolução é medida pelo fator de impacto, com a indicação de quantos artigos, em longa lista de periódicos científicos, citaram artigos de uma determinada revista.

O pequeno escândalo surgiu porque editores de quatro revistas científicas brasileiras da área médica utilizaram um esquema para gerar aumento rápido em seus respectivos fatores de impacto. Em 2011, publicaram artigos citando textos umas das outras. A peraltice não passou despercebida aos analistas da Thomson Reuters, ciosos da reputação de seu ranking. O fenômeno não é exclusivamente local. Diversas revistas científicas internacionais induzem autores interessados a citar artigos publicados por elas mesmas. Todos os anos, dezenas de periódicos são suspensos pela Thomson Reuters por usar artifícios para inflar seus fatores de impacto.

O triste evento é mais uma peça podre a emergir do pântano no qual a ciência está se transformando. Nas últimas décadas, o Brasil multiplicou seu número de cientistas. Há entre eles grandes cérebros, estrelas ascendentes e uma legião de abnegados. Muitos não honram, porém, o título. São pequenos burocratas, acomodados à lerdeza dos campi universitários. Vivem de verbas públicas. Realizam pesquisas de utilidade duvidosa para delas extrair a máxima vantagem.

O culto ao fator de impacto, uma métrica útil, porém descabidamente valorizada, gera distorções. Algumas instituições de ensino adotam como prática contratar pesquisadores para “envernizar” seus indicadores e conseguir melhores avaliações. No debate após a divulgação do esquema, o alvo oscilou entre os editores responsáveis pelas revistas e o “sistema”, considerado injusto e vicioso.

Terá sido o esquema uma solução criativa para enfrentar um sistema anacrônico? O tempo talvez traga a resposta. O pântano pode ser extenso e profundo. Novas surpresas poderão emergir a qualquer momento.