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Número 769,

Cultura

Literatura

O silêncio arruinado

por Francisco Quinteiro Pires — publicado 03/01/2014 10h44
Biografia, documentário e alegados inéditos buscam explicar a literatura do escritor norte-americano J. D. Salinger
Flickr / Frank Smith
salinger

Após o divórcio, o autor de "O apanhador no campo de centeio" decidiu não mais publicar

Recluso famoso, J. D. Salinger (1919-2010) “nasceu com apenas um testículo”. A deficiência física foi “com certeza uma das razões principais para ele ter fugido do radar da mídia”. Ao se esconder, Salinger pôde “reduzir a probabilidade de que essa informação viesse à tona”. A carência reforçou a necessidade de criar “uma arte sem defeito”. Essa é uma das especulações apresentadas por Shane Salerno e David Shields em Salinger (Simon & Schuster, 720 págs., US$ 37,50), “o livro oficial do aclamado documentário”. A biografia, a ser lançada pela editora carioca Intrínseca em janeiro, forma um pacote com um filme de mesmo título dirigido por Salerno, um dos roteiristas de Armageddon (1998).

O livro e o documentário anunciaram a publicação de cinco trabalhos inéditos de Salinger entre 2015 e 2020. Os autores atribuem a revelação a duas fontes anônimas e independentes. Little, Brown and Company, a editora norte-americana que publica as obras de Salinger, foi procurada por CartaCapital, mas não confirmou a existência do material inédito ou a intenção de lançá-lo. Salerno e Shields propõem desvendar “o mistério” da reclusão de Salinger ao longo de 57 anos. Realizaram mais de 200 entrevistas em quase uma década e reutilizaram o conteúdo de biografias anteriores escritas por Ian Hamilton, Paul Alexander e Kenneth Slawenski. Um dos entrevistados do documentário, Alexander é tratado como “consultor” do novo projeto biográfico.

Em oposição a formas mais tradicionais de escrita, entre elas o romance e o ensaio, a dupla adotou um recurso definido por Shields no livro Reality Hunger (2010) como colagem e livre apropriação. Ambos repetem uma convicção de Ralph Waldo Emerson (1803-1882) ao alegarem ser “tão difícil se apropriar dos pensamentos dos outros quanto criar os próprios”. Guiados por essa premissa, Salerno e Shields deixaram seus entrevistados falar livremente, ora sem oferecer um contexto, ora sem separar fatos de conjecturas. Esse método resultou no que chamam de “biografia oral”. A vida privada de Salinger, que a partir de 1953 se isolou em Cornish, vilarejo de New Hampshire, apresenta-se na forma de opiniões fragmentadas de amigos, amantes, familiares, fãs, escritores e atores como Philip Seymour Hoffman e Martin Sheen.

“A exploração da vida pessoal de alguém que valoriza bastante a própria privacidade sempre desperta questões complicadas, mas o que Salerno fez parece mais problemático, porque sua justificativa para a biografia não está ligada à ampliação do entendimento sobre os escritos de Salinger”, diz Andrew Barker, crítico de cinema da revista Variety. Os biógrafos tiveram dificuldade para abordar a produção literária porque o acervo de Salinger proíbe, além de adaptações cinematográficas, a citação do conteúdo dos seus livros e cartas. “Por isso, quase nenhuma das suas palavras é reproduzida”, explica Phoebe Hoban, biógrafa de Jean-Michel Basquiat e uma das entrevistadas do documentário. “A melhor maneira de entender Salinger é ler suas obras. Ele se revela nas páginas.”

Barker decepcionou-se com a adoção de um estilo sensacionalista pelo diretor. “Salinger foi comparado a Howard Hughes. Embora tenham existido e ainda existam escritores prestigiosos, como Emily Dickinson, Marcel Proust, Thomas Pynchon e Dalton Trevisan, que por escolha própria se afastaram da vida pública durante longos períodos, o filme não os menciona”, diz o crítico. “Salinger não foi o primeiro a se tornar recluso para exercer o seu ofício, apesar de o documentário fazer essa sugestão.” A comparação com o produtor e aviador Howard Hughes, dono de um comportamento excêntrico, agravado por distúrbios psiquiátricos, pode insinuar uma aparência de anormalidade ao isolamento de Salinger. Para o autor de O Apanhador no Campo de Centeio (1951), escrevem os biógrafos, “a vida foi uma missão suicida em câmera lenta”.

A noção, expressa pelo documentarista, de que Salinger teria se escondido por décadas para despertar a curiosidade é ofensiva, acredita Barker. “Há formas mais fáceis de gerar publicidade do que desaparecer do olhar público e parar de publicar por mais de 45 anos.” Editor de cinema do jornal Village Voice, Alan Scherstuhl sentiu incômodo semelhante. “O documentário não respeitou o espírito, a seriedade e a qualidade do trabalho artístico de Salinger”, diz. “O filme em si tem tudo aquilo que o escritor odiava em Hollywood e isso prova que Salinger estava certo ao nutrir esse ódio.” Ainda assim, Scherstuhl afirma, as entrevistas expõem histórias proveitosas.

Salerno conversou com Jean Miller e Joyce Maynard, duas ex-amantes do ficcionista. Miller tinha 14 anos quando conheceu Salinger, em 1949, mas se envolveu sexualmente com ele aos 19. Seduzida pelas cartas que o ficcionista lhe enviava, Maynard, então escritora de 18 anos, mudou-se em 1972 para a casa de New Hampshire, onde ambos assistiam a filmes antigos em 16 milímetros. A atração por mulheres bem mais jovens viria do trauma experimentado por Salinger depois de Oona O’Neill, filha do dramaturgo Eugene O’Neill, abandoná-lo e casar-se com Charles Chaplin. A obsessão com a perda da inocência, tema caro à literatura de Salinger, pautaria seus hábitos amorosos. O’Neill tinha 18 anos quando se uniu a Chaplin, um cinquentão. No mesmo período, o escritor era um soldado de 24 anos em atuação na Segunda Guerra Mundial.

“Você pode viver uma vida inteira sem tirar do nariz o cheiro de carne humana queimada”, confessou Salinger à filha Margaret. Salerno e Shields acreditam que o ficcionista nunca se recuperou da experiência bélica, fundamental para entender a sua obra e o seu isolamento. “A guerra o deteriorou como homem e o forjou como grande artista”, escrevem. De acordo com os biógrafos, Salinger chocou-se com a visão de corpos queimados e esquálidos em Dachau. Terminado o conflito, atuou no serviço de contrainteligência, responsável por caçar os nazistas remanescentes. Casou-se com Sylvia Welter nessa época. Salinger teria logrado uma lei contrária ao casamento entre norte-americanos e alemães ao falsificar a identidade de Welter. Salerno e Shields sugerem que a primeira esposa de Salinger foi informante da Gestapo, a polícia secreta nazista.

Kenneth Slawenski havia descrito os horrores testemunhados pelo escritor na Segunda Guerra Mundial. Em Salinger, Uma Vida (LeYa Brasil. 2011), revelou que o ficcionista foi internado com estresse pós-traumático em 1945. “De fato, o conflito o transformou”, explica. “Os escritos pré-guerra têm um caráter comercial. Depois eles se tornam mais profundos, à medida que questionam o significado da vida e a natureza humana.” Slawenski lembra que a geração mais impactada por O Apanhador no Campo de Centeio, os baby boomers dos anos 1950 e 1960, desconhecia o passado militar do autor. “Ainda assim, sua ficção teve ressonância”, afirma. “A consciência sobre o que Salinger suportou em combate não explica toda a sua obra, mas lhe acrescenta outra dimensão.”

A experiência bélica contribuiu para o afastamento gradual da vida pública. “Uma série complicada de fatores”, diz Slawenski, “explica o retraimento: a tendência à solidão, a adoção da austeridade religiosa, uma desconfiança geral em relação às intenções alheias e uma timidez natural.” Salinger havia se frustrado com os valores de uma sociedade materialista e individualista. Em sua casa de New Hampshire, praticava ioga e estudava religiões. Durante um tempo, tentou oferecer com sua obra valores espirituais, mas desistiu do mundo ao longo desse processo. Em cartas no fim da vida, revelou um desgosto profundo com a sociedade.