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Número 769,

Cultura

TV

Excesso de elegância

por Nirlando Beirão publicado 05/10/2013 06h16, última modificação 05/10/2013 07h07
As virtudes de Fátima Bernardes exprimem as dificuldades de seu programa: elegante demais, certinha demais... Por Nirlando Beirão
Divulgação
Fátima

Fátima, a certinha: uma pitada de molejo lhe cairia bem

As virtudes de Fátima Bernardes parecem exprimir as dificuldades do Encontro com Fátima Bernardes (de segunda a sexta, das 10h40 às 12h, na Globo). Ela é elegante demais, asseadinha demais, certinha demais para um horário que decididamente flerta com o kitsch e com o óbvio, que tem tradicionalmente cheiro de fritura barata e de elixires curativos.

Não se trata de criticar o miscasting, pois desta vez, se a Globo errou, foi para melhor e não para pior. Mas falta a Fátima o molejo ambíguo da gafe e do constrangimento, aquela, digamos, impureza simbólica, a impropriedade visceral e cafona que forja os genuínos regentes de auditório. Ou então aquele cinismo blindado do Pedro Bial, que promove a baixaria resguardando-se, porém, num subtexto que parece dizer: “Olha como eles são ridículos, e eu, tão bacana”.

Na última terça-feira, por exemplo, Fátima desfilava, com suave naturalidade, um modelito que lembrava – no bom sentido, não ironizo – o Art Deco District de Miami Beach. As gentis telespectadoras devem ter ficado entre fascinadas e perplexas.

A Globo movimenta todas as suas Panzerdivisionen do entretenimento e do jornalismo na tentativa de fazer do show matutino de Fátima Bernardes o sucesso de audiência que ainda não é, 15 meses depois da estreia. Case de prestígio dá para dizer que o programa já é, e para isso facilitam as coisas as teias de interatividade abertas pelo capilar sistema Globo de reiteração e redundância. A máquina até certo ponto se impõe.

Articulada, rainha do bom senso, Fátima Bernardes administra seu sofá diuturno com uma pauta além do razoável e com um elenco de quase famosos. Hebe Camargo fazia isso com admirável, maternal espontaneidade. Quando vi Fátima arriscando
uns passinhos de samba uma manhã dessas, tive uma saudade tremenda da Hebe.