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Número 769,

Sociedade

Atitude

A outra cabeça

por Clara Averbuck publicado 13/10/2013 11h12, última modificação 14/10/2013 16h14
Livro compila, com o olhar do preconceito, as alegrias e travessuras provocadas pelo “mais precioso ornamento do homem”. Por Clara Averbuck
Flickr / @raulds
Davi

O Davi, de Michelangelo: sempre aquele probleminha

“É uma verdade universal que um homem de posse de um pênis produzirá alguns de seus pensamentos com ele.” Começa assim o prólogo de Um Rabisco de Deus, um livro que trata sobre a criação (...?!) do pênis (Ed. Bússola, 219 págs.). Não suporto a ideia de que o homem é comandado por seu pênis e a mulher é guiada pelo coração. Me enfurece que essa construção seja tomada como uma verdade universal e atemporal. Sim, é uma construção milenar, como prova o autor, Tom Hickman, diante de referências desde os sumérios até atores de Hollywood, passando por Da Vinci, Dalí, Freud e muitos outros, mas uma construção – que precisa urgentemente ser desconstruída, para o bem de todos.

Possuir um pênis não faz automaticamente de você um homem. O autor ignora completamente que existam transgêneros, como se somente valesse tratar dos homens “normais”. O resto é aberração. Vamos tratar do normal, do corriqueiro, do homem comum, aquele que é um ser dotado de racionalidade, mas tem frequentemente peças pregadas por um membro que carrega no meio das pernas.

Há também inúmeras digressões sobre tamanho. Vou contar então, meninos: isso importa mais no vestiário masculino do que durante o sexo. Muitos homens perfeitamente normais vivem complexados por achar que seus paus são muito pequenos, ou finos, ou pelancudos, ou têm uma cor estranha, enfim, coisas que importam muito pouco para as mulheres. O seu pau, moço, não é tão importante assim. Eu sei que é chocante ouvir isso a esta altura da vida, depois de achar a vida inteira que “pica grossa” é um dos maiores elogios possíveis, mas ó: não.

Lá diz também que “os homens desejam sexo, mas desde o início dos tempos tiveram muito cuidado com sua fonte de prazer”. Desfilam-se absurdos sobre as crenças a respeito da vagina, que consideravam ter aspecto mutilado. Cita aforismo muçulmano de que “há três coisas insaciáveis: o deserto, a cova e a vulva de uma mulher”, cita o mito da vagina dentata e alguns outros mitos delirantes como o que diz que algumas bruxas (...) roubavam pênis em grandes quantidades, mantendo em caixas ou ninhos e os alimentando com milho e aveia, o que os mantinha vivos e se movendo. Confesso que ri muito e essa visualização me fez suportar ter de passar pela provação de terminar esse livro, que não conseguiu decidir se mulheres gostam ou não de sexo, já que vulva é insaciável e consome e cospe o pobre pênis, mas a busca do prazer é atribuída exclusivamente ao homem.

O prazer da mulher não depende da “vontade” do pênis. O aparelho feminino é infinitamente complexo, não apenas um receptáculo para o pênis. O clitóris também fica duro e também relaxa, mas isso ninguém sabe. Apenas um quarto do clitóris fica do nosso lado de fora e temos inúmeras terminações que se conectam a ele. Freud não manjava nada de vagina, por isso resolveu então que as mulheres teriam a famigerada inveja do pênis. A quem ainda acredite nisso, aconselho que dê uma busca básica em “cliteracy” no Google e reflita.

Homens, vocês podem mais do que isso. Vocês não precisam se assumir como criaturas incapazes de controlar o desejo, como reféns de um pedaço seu. A partir do momento em que sabemos ser civilizados, essa história de que o homem é comandado pelos instintos, que “pensa” com a cabeça do pau, cai por terra. Inclusive o autor deveria ter pesquisado um bocadinho melhor a respeito das terminações nervosas penianas versus cerebrais, posto que há diversas informações equivocadas. Aliás, o livro traz algumas informações interessantes, mas são muitas visões distorcidas e tendenciosas e que fazem do livro uma maçaroca de texto conflitante.