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Número 768,

Cultura

Cinema

Um homem de qualidades

por Orlando Margarido — publicado 01/10/2013 03h09, última modificação 01/10/2013 09h19
Documentário lembra o diplomata João Guimarães Rosa no desafio de salvar judeus na Alemanha nazista. Por Orlando Margarido
Divulgação
Rosa

Ellen Kazaschinsky, com a irmã e a mãe no retrato. A família sobreviveu graças a Rosa

Ao João Guimarães Rosa fabulista e fabuloso, como o consagrou Carlos Drummond de Andrade, soma-se uma habilidade pouco iluminada pela memória no documentário Outro Sertão. Entre 1938 e 1942, o escritor mineiro, então cônsul-adjunto em Hamburgo, Alemanha, promoveu a fuga de judeus para o Brasil ao conceder-lhes vistos de turista, salvando-os da perseguição nazista. Contava com o apoio de sua segunda mulher oficial, Aracy Moebius de Carvalho, mas pagou o ato desafiador com um recolhimento compulsório de quatro meses por ordem dos alemães, no momento em que o Brasil rompe relações com o país. A trajetória esmiuçada no filme das diretoras Adriana Jacobsen e Soraia Vilela, Prêmio Especial do Júri do 46º Festival de Brasília, encerrado terça 24, não é porém sua maior revelação. Numa pesquisa de uma década, a dupla encontrou um raro registro audiovisual de Rosa.

Em 1962, o escritor debatia com desenvoltura na tevê alemã suas principais obras com um entrevistador que entendia do riscado em Grande Sertão: Veredas e Sagarana, por exemplo. Ouvia as perguntas na língua do anfitrião e, sem precisar da tradução, respondia em português, deixando o outro um tanto atônito. Rosa, que havia estudado quando garoto com padres alemães em Belo Horizonte, justifica o questionamento de sua linguagem cada vez mais sintética como exigência do jornal em que publicou os contos de Primeiras Histórias, então recém-publicado.

É bom lembrar que as versões locais dos livros ainda não existiam. Alguns estudiosos e tradutores posteriores da obra roseana são ouvidos em registros de arquivo, no momento em que se aguarda uma nova tradução por Berthold Zilly, que verteu Os Sertões, de Euclides da Cunha, assim como os descendentes dos judeus assistidos por Rosa. Enquanto isso, essa bonita revisão poética, em que a voz do autor sobressai a partir de seus diários de escrita peculiar, demonstra mais uma faceta de um homem com qualidades.   

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