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Número 768,

Cultura

Protagonista

O homem das certezas

por Orlando Margarido — publicado 29/09/2013 11h09
Autor da cinebiografia de Lech Walesa, o diretor Andrzej Wajda diz fazer filmes para que a história, sobretudo a da Polônia, não seja esquecida
Divulgação
Polônia

Robert Wieckiewicz, espantosa semelhança física com o líder polonês em Walesa

Aos 87 anos, o cineasta polonês Andrzej Wajda continua a fazer valer uma confiança que o orienta desde a realização dos primeiros filmes, na década de 1950. Para ele, a memória coletiva é débil e a juventude, refratária ao passado. Por isso, seu empenho maior no cinema é fazer lembrar um período histórico, um personagem, ou ambos. Foi assim com alguns de seus títulos mais prestigiados, a exemplo de Kanal (1957) e, no ano seguinte, Cinzas e Diamantes, dramas levados sob a ocupação nazista, O Homem de Mármore (1976), retrato de dois períodos da Polônia a partir de uma visão do proletariado, e O Homem de Ferro (1981), sobre os primeiros anos de protestos e da origem do movimento Solidariedade. Vem atender a esse sintoma da lembrança seu mais novo filme, Walesa, de subtítulo O Homem da Esperança. Alusão que nos permite pensar na relação de uma trilogia, tanto mais por Lech Walesa surgir ele mesmo no segundo longa-metragem da série e agora ter sua trajetória contada na forma de ficção.

É o projeto mais delicado e de maior vínculo pessoal de Wajda com seu objeto, assegura o diretor, envolvimento marcado pela admiração. O filme está programado para o Festival do Rio, que tem início na sexta 27, e tem estreia prevista para o começo do próximo ano. Por essa relação sentimental, o filme torna-se partidário de uma figura em que pouco se notarão variações de caráter. Durante uma entrevista em grupo no recém-finalizado 70º Festival de Veneza, onde o filme estreou fora de concurso, CartaCapital perguntou ao cineasta qual a proximidade de Walesa com a produção e se não caberia maior distanciamento crítico em relação ao personagem. “A aproximação foi total, no sentido de ele ter conhecimento do que eu faria e de ter dado liberdade para isso”, diz o diretor. “Quanto a desvendá-lo em suas fragilidades e contradições, que presumo ser o que você pergunta, me bastou ele mesmo as expor em seus diálogos e respostas na entrevista.”

Wajda refere-se ao recurso adotado como fio condutor ao filme. Este inicia com Walesa, interpretado por um Robert Wieckiewicz de espantosa semelhança física, em uma entrevista em Gdansk à célebre jornalista italiana Oriana Fallaci (Maria Rosario Omaggio), conhecida por sua verve áspera. Do outro lado, não é menor a capacidade de enfrentamento e Walesa logo poda a autoridade da repórter ao tratá-la de ditadora e sugerir o fim do encontro. A conversa prossegue com o reconhecimento mútuo de personalidades egocêntricas, enquanto a trajetória do eletricista que se fez líder nato do operariado das docas corre até seu triunfo com o Solidariedade. Wajda não chega ao período no qual o militante assume a Presidência do país, em 1990. “Quero crer que dessa fase a nova geração tenha boa memória. Minha intenção foi recompor o surgimento e a formação de Lech, e convencer os jovens de que sua trajetória é um bom estímulo à participação deles na nossa vida política.”

Wajda tem suas experiências pessoais a validar uma visão bem dimensionada do contexto de sua nação. Foi ele mesmo senador entre 1989 e 1991. E, claro, testemunha privilegiada, mesmo quando não gostaria, do ciclo de transformações históricas na Polônia. Na Segunda Guerra Mundial, seu pai, intelectual e oficial militar de alta patente das tropas polonesas, desapareceu até que a família, baseada em Cracóvia, soubesse ter sido preso pelos soviéticos, executado a tiros e enterrado numa vala comum pelos nazistas. Ao episódio Wajda dedicou o filme Katyn, referência à floresta local onde os corpos dos oficiais poloneses desapareciam anônimos após o fuzilamento, um dos projetos recentes e mais perturbadores do cineasta. No pós-Guerra viu ascender o regime stalinista de Boleslaw Bierut e suas forças de censura.

Anticomunista ferrenho, interessou-lhe estar próximo do protesto dos trabalhadores de Gdansk contra o aumento exorbitante do preço dos alimentos nos anos 1970, as más condições de trabalho e baixos salários. O Homem de Ferro assinalou o cenário de mudanças ainda no calor dos acontecimentos e deu mostras do olhar atento do cineasta.

Se antes esse painel surgia amplo, com nomes determinantes às transformações, no novo filme ele se personifica na figura de Walesa. Temos seu cotidiano de marido e pai de família numerosa, na qual a base é a mulher Danuta (Agnieszka Grochowska), a quem sempre retornará e recorrerá como esteio. Para marcar esse vínculo, o diretor cria um elemento dramático simbólico, mas também romântico. O líder sempre deixará seu relógio e aliança entregues a Danuta, caso ele não volte mais, para ela poder vendê-los e sustentar a casa. Evidente sintoma das pressões e perigos em curso, hábito após sua luta vitoriosa.

As imagens reais
de Walesa utilizadas, mesmo quando recebe o Nobel da Paz em 1983, o flagram a distância. “Não queria uma dispersão do espectador entre o homem individual e aquele que se vê em multidões, em aparições sociais. Me interessou sempre a personalidade a partir do núcleo onde se formou, ou seja, a família, a casa, o país.” Wajda explora a habilidade de Walesa em utilizar em seu benefício o credo religioso de uma nação católica e a figura do papa João Paulo II.

As discussões políticas e as decisões do movimento ocorrerão sempre em torno da personalidade arguta, que dizia nunca ter lido um livro e detestar intelectuais “por levarem dias para chegar à mesma conclusão a que ele chegava em cinco segundos”. Em apenas um momento Wajda estabelece uma ligação com fatos mundiais, e que tocou com bom humor durante a entrevista. “Achei que você não me perguntaria sobre Lula, o homem da esperança no seu país, não? Um grande amigo de Walesa.” A referência no filme acontece não diretamente, mas durante um dos primeiros comícios, ainda improvisados, à porta da administração das docas, em 1980, quando Walesa saúda os companheiros em luta no Brasil e na Tailândia. “É o mesmo momento em que Lula está surgindo e é magnífico que tenha chegado, como Walesa, à Presidência.”

Por ser um homem também de teatro, Wajda tem a habilidade de trabalhar os retratos de sua nação e por vezes de outras no domínio histórico, de que é caso simbólico o sucesso Danton – O Processo da Revolução (1983), mas igualmente intimista. Um deles deu mostra da anima juvenil e de renovação artística do mestre. Tatarak (2009) é um ensaio de cunho documental que dramatiza a tristeza de luto da atriz Krystyna Janda, parceira recorrente do diretor, depois da morte do marido Edward Klosinski, este o fotógrafo consagrado internacionalmente ao lado de Wajda e a quem o filme é dedicado. O profissional ainda mereceria uma homenagem mais direta, agora em forma de documentário, em um filme de 2010 sobre sua colaboração com Krzystof Kieslowski e Krzystof Zanussi.
Wajda diz ter enorme prazer em reverenciar a quem admira, e assume a presunção de ser o mais indicado a fazê-lo quando lhe compete. Com Walesa, a certeza funciona num relato convertido em um culto à sua imagem. “Ele foi o homem certo, perfeito para um momento”, diz. “Ninguém reuniria como ele, um operário, 10 milhões de associados em torno de um movimento como o Solidarnosc, que pôs abaixo o socialismo na Polônia e o Muro de Berlim. Se esse não é um homem a ser reverenciado, então não sei quem possa ser.” •   

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