Você está aqui: Página Inicial / Revista / Brucutus na web / Como se fosse 1986
Número 768,

Economia

Sem tecnologia

Como se fosse 1986

por Thomaz Wood Jr. publicado 01/10/2013 03h04, última modificação 01/10/2013 05h02
Casal de canadenses abandona gadgets para fortalecer laços familiares. Um músico dos EUA registra em documentário a era de ouro de um estúdio analógico
Reprodução / The Atlantic
McMillan

A família McMillan assiste televisão em um modelo típico da década de 80

Blair e Morgan McMillan formam um casal canadense típico, exceto pelo fato de terem eliminado de suas vidas todas as tecnologias introduzidas após 1986. Por que 1986? Porque foi o ano em que ambos nasceram. A dupla decidiu experimentar uma vida livre de internet, iPhone, Xbox, iPad, GPS, Facebook, Instagram, Twitter e qualquer outra “maravilha” moderna.

Tudo começou quando o casal percebeu que as tais maravilhas roubavam a infância de seus filhos, dois pimpolhos de 5 e 2 anos de idade. O mais velho já se recusava a abandonar seu iPad para brincar fora de casa. Foi nesse momento que o casal, conforme descrito por um jornal de Toronto, decidiu aposentar seus telefones celulares, cortar a tevê a cabo e apagar as contas no Facebook.

Recentemente, o casal se recusou a ver a foto digital de uma sobrinha recém-nascida. Foi conhecê-la pessoalmente. Suas fotos são tiradas em máquinas analógicas e reveladas. Nada de Instagram! Em lugar do Google ou da Wikipedia, Blair e Morgan agora usam uma enciclopédia impressa! Os videogames deram lugar a livros e jogos. Seus visitantes passaram a ser instruídos a deixar seus aparelhos em uma caixa de madeira, sobre um armário, na sala da casa.

A adaptação não foi simples. Blair confessou ter sentido uma “dor fantasma” após se livrar de seu telefone celular. Às vezes tem a sensação de vibração em seu bolso, como se o aparelho ainda estivesse ali. Morgan, no início da nova vida, não se conformava de precisar apagar seu perfil no Facebook, mas declarou ter lido 15 livros desde então.

Para viabilizar a sobrevivência durante o ano que o experimento está previsto para durar, o casal faz algumas concessões. A esposa continua a usar computadores, mas somente no trabalho. O carro do casal é de 2010, mas as viagens são feitas com apoio de mapas impressos. Nada de GPS! Os resultados são, segundo o casal, notáveis: enquanto as crianças das outras famílias mergulham nos tablets dos pais, seus filhos inventam formas criativas para se entreter e apreciam as paisagens e os lugares visitados.

Sound City, documentário dirigido pelo músico Dave Grohl, exala o mesmo tipo de preocupação e nostalgia que parece ter atingido os McMillan. Grohl fez sucesso em grupos populares como Nirvana e Foo Fighters, mas Sound City foi a primeira incursão como diretor. O filme narra a ascensão, os instáveis dias de glória e a queda do famoso estúdio californiano de gravação que lhe dá título.

Passaram por Sound City artistas e grupos que marcaram a era criativa do rock, como Fleetwood Mac, Tom Petty, Neil Young e o próprio Nirvana. O local é descrito como uma pocilga, um estúdio montado improvisadamente em um conjunto de galpões antes sede de uma fábrica, mal-acabado e malconservado. Brilham apenas a simpatia dos donos e da equipe de apoio e uma imponente mesa de gravação Neve 8028, prodígio da tecnologia analógica da época.

Desse amálgama emergem alguns discos antológicos da história da música popular americana. Inexplicável? Nem tanto. A criatividade não costuma brotar de ambientes ascéticos e bem controlados. Surge da combinação nem sempre previsível de paixões e obsessões humanas, eventualmente combinadas a algum tipo de tecnologia que facilita e amplifica sua expressão, sem condicioná-la ou domesticá-la.

O declínio do estúdio e o desaparecimento da mágica criativa são associados à emergência das tecnologias digitais, que transformaram substancialmente a indústria da música. Nostálgico, Grohl compra e recupera a mesa Neve e volta a utilizá-la em seu próprio estúdio, com seus amigos, como se estivessem nos anos 1980 ou 1990.

O músico e diretor não é um ludita, mas o documentário registra um profundo lamento pela perda do fator humano, ocorrido na passagem da era analógica para a digital, com suas infinitas possibilidades de manipulação e capacidade de sedução. Talvez os McMillan possam assistir a Sound City, se for lançado em VHS, ou ouvir a trilha sonora, se for distribuída em vinil ou fita cassete. A qualidade não será perfeita, mas a vitalidade estará lá.