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Número 768,

Cultura

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Ao ritmo do carimbó

por Oliviero Pluviano — publicado 29/09/2013 17h59
Às margens do Tapajós, ouça os mestres Lucindo, Capijó e Verequete, e participe da festividade do çairé
Oliviero Pluviano
Çairé

A procissão do mastro antecede em uma semana a manifestação religiosa

"Çairé” é a única palavra que começa com cedilha no vocabulário português do Brasil. É uma manifestação religiosa e pagã dos índios borari, evangelizados pelos jesuítas que aportaram na região incrivelmente hospitaleira do Rio Tapajós, abrangendo os atuais estados do Pará e Amazonas. No Tapajós, que antes da confluência com o Rio Amazonas em Santarém chega a ter até 20 quilômetros de largura, não há mosquitos graças às suas águas es­curas, e a sucuri, o jacaré e a piranha não representam perigo para o homem: inexistem peixes-elétricos e o candiru.

Quando a água do rio baixa, na boa estação que vai de junho a janeiro, afloram centenas de quilômetros de praias de areia fina, similares àquelas do Caribe, mas completamente desabitadas. Uma delas, chamada “Ilha do Amor”, é na verdade um maravilhoso promontório arenoso de Alter do Chão, a cerca de 40 quilômetros de Santarém, que o jornal britânico The Guardian define como uma das dez praias mais bonitas do Brasil.

Frequento essa região há quase dez anos. Lá tenho um barco, o Gaia, uma “gaiola”, como são chamadas as embarcações locais de madeira que levam redes penduradas nas bordas. Já o emprestei a uma ONG para fazer campanhas de vacinação ao longo do rio. Atualmente, é equipada para levar cinema às muitas comunidades ribeirinhas carentes de cultura.

Graças a isso há poucos dias acompanhei a procissão do “mastro”, que antecede em uma semana a festa do çairé, festival folclórico semelhante ao de Parintins, com a inventada guerra carnavalesca entre os botos tucuxi e os cor-de-rosa, abundantes na área.

Duas árvores cortadas representarão as origens da festa, e sua escolha é tão sagrada quanto o significado do termo tupi çairé, que se refere a uma cesta de cipó com três cruzes, representando o mistério do Pai, do Filho e do Espírito Santo, levada em procissão pelas mulheres da tribo. O cortejo é lotado de “catraias” (canoas), todas enfeitadas com tiras de papel colorido, rebocadas por um barco a motor, que segue para o Lago Verde até chegar ao local onde os dois troncos serão carregados. Ótima ocasião para beber em uma cuia a “tarubá”, aguardente indígena à base de mandioca, e regar os pratos amazônicos servidos nas barracas da “Ilha do Amor”: tambaqui grelhado, pirarucu no tucupi e bolinho de piracuí (feito com farinha de peixe e batata).

A música que acompanha toda a festividade é, obviamente, o carimbó, a “lambada” do Pará. O carimbó tocado hoje foi divulgado por Eliana Pittman nos anos 70, mas com a introdução de instrumentos eletrônicos e de sopro na sua exe­cução perdeu muito de sua originalidade.

Já não são mais os tempos de Mestre Lucindo, que nasceu, em 1908, em Marapanim, onde o Rio Amazonas encontra o mar. Era um simples pescador. Uma de suas últimas fotos, antes de falecer em 1988, mostra seu rosto escuro crestado pelo sal e pelo sol, mas seus cabelos ainda eram negros. Suas músicas falam poeticamente de luar, pescarias, pássaros, marés e sereias.

Procure no YouTube Mestre Lucindo Rebelo da Costa, o equivalente amazônico de Dorival Caymmi. Mas também não deixe de ouvir as músicas de Mestre Cupijó e de Mestre Verequete: os três personificam a antiga tradição do carimbó “pau e corda”, que vai desaparecendo

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