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Número 767,

Economia

OMC

A pinça americana

por Delfim Netto publicado 27/09/2013 03h21, última modificação 27/09/2013 04h32
Nos episódios de espionagem, vemos que os EUA não se obrigam a seguir a lei dos outros. É como fossem os donos do mundo. Por Delfim Netto
Antonio Cruz/ABr
Roberto Carvalho de Azevêdo

O primeiro brasileiro eleito diretor-geral da OMC, o embaixador Roberto Carvalho de Azevêdo está empenhado em retomar negociações da Rodada de Doha

O novo diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, o diplomata brasileiro Roberto Azevêdo, está empenhado em reanimar as negociações da chamada “Rodada Doha” durante a reunião do próximo dezembro, em Bali, na Indonésia, mesmo sem ter a expectativa de concluí-las. Não há interesse de parte das nações desenvolvidas em avançar na discussão dos problemas da agropecuária, em especial quanto aos subsídios aos produtores domésticos. Ele recebeu mensagem da presidenta Dilma Rousseff estimulando-o a enfrentar o desafio de revigorar a combalida OMC insistindo nas negociações e aproveitou para exortar os negociadores das demais economias emergentes a viajarem a Bali comprometidos com um pacote de liberalização. E alertou-os de que “o mundo não vai esperar por nós indefinidamente”.

Minha visão é de que a resistência mais feroz provém de países da Comunidade Europeia e dos Estados Unidos. Não há a menor esperança de que os americanos ajudem na solução dos problemas colocados em Doha, imaginando que aceitem um acordo multilateral, quando eles estão envolvidos com uma estratégia muito diferente, fazendo movimentos de pinça para isolar os principais concorrentes: um acordo transatlântico com parceiros na Europa, outros com o Pacífico e não apenas com asiáticos, mas com países do “nosso” Pacífico (como Chile e Peru), trazendo de volta o Japão e construindo acordos isolando ou cercando a China. Nós ficamos, claramente, de fora desse processo de ligações internacionais.

Os Estados Unidos não demonstram interesse em participar de acordos multilaterais de comércio. Sempre agiram de forma diferente pelo fato de que eles têm a pretensão de que a lei americana pretere todas as demais. Podem até assinar alguns, mas sabendo que só terão mesmo de se submeter às próprias leis se forem contrariados nos seus interesses.

Estamos vendo agora, nesses episódios de espionagem, que os Estados Unidos não se obrigam a seguir as leis dos outros. É como se perguntassem: vocês não sabem que nós somos os donos do mundo? Estão achando ruim o quê?

Nos casos da espionagem comercial, não são apenas os Estados Unidos que espionam o mundo: a França espiona os americanos e o resto do mundo; a China está a cada dia espionando mais o planeta, fazendo o que todos fazem, e até se aventurando fora dele. E é certo que, embora sem muito empenho, nós, brasileiros, fazemos as nossas artes nessa matéria. Porque a verdade é que todo mundo espiona todo mundo.

No particular universo do petróleo, a espionagem das atividades da Petrobras não é muito diferente da que é feita em relação à BP ou a qualquer uma das grandes. Contam-se muitas histórias a respeito das descobertas submarinas do pré-sal, mas é fato que nós fomos alertados, em 2002, da existência de manchas profundas na costa brasileira, “mapeadas” por um satélite norte-americano que passeava “meio distraído” por aqui.

Não é o caso de se assustar ou ficar muito preocupado com algumas “historinhas” a respeito de “achamentos” (como diria Dom Manuel, o Venturoso) das riquezas de nossas 200 milhas marítimas: no fim da década dos anos 50 do século passado, pouco depois da divulgação do famoso “Relatório Link” – resultado de pesquisa americana contratada pelo governo brasileiro, que causou comoção nos meios nacionalistas, porque aconselhava a pesquisar petróleo no mar, abandonando inúteis pesquisas em terra –, tive a oportunidade de ler entrevista de um técnico de importante petroleira americana (uma do grupo das “Sete Irmãs”) que respondia à pergunta do jornalista: “Afinal, onde se localizam essas jazidas de óleo no litoral brasileiro?” A resposta veio precisa (demais): “Não muito distantes da costa (sic), desde o litoral do Espírito Santo até Santa Catarina”.

Trinta anos depois, graças às perfurações no mar, o Brasil começou a se livrar do pesadelo das importações de petróleo, já durante o auge da crise mundial dos preços do combustível. Nada a ver, ainda, com as descobertas do pré-sal, meio século depois do famoso (e execrado) relatório “yankee”.

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