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Número 766,

Cultura

Cinema

Uma vitrine humanista

por Orlando Margarido — publicado 14/09/2013 09h57, última modificação 16/09/2013 09h29
Veneza surpreende ao conceder o Leão de Ouro a um documentário, em uma edição na qual boas ficções rarearam
Divulgação
Sacro GRA

Em Sacro GRA, um nobre decaído divide com a filha o apartamento apertado

A surpresa aportou na edição de número 70 do Festival de Cinema de Veneza, finalizado no sábado 7. No formato, o evento bancou o risco ao trazer entre 20 competidores uma maioria de língua inglesa nivelada entre jovens e veteranos realizadores, uma seleção que, por fim, resultou em filmes medianos e mesmo ruins, salvo as exceções de praxe. Depois, a mostra consagrou na premiação aqueles que fugiam desse enfoque anglo-saxônico da curadoria. E, especialmente, Veneza surpreendeu ao destronar a ficção como gênero supremo e conceder o Leão de Ouro ao documentário italiano Sacro GRA. Trata-se de preferência inédita na história do Lido, a ilha onde acontece o evento, e do primeiro filme dessa nacionalidade a vencer o festival nos últimos 15 anos.

A investigação humanista de personagens que vivem à beira do Gran Raccordo Anulare, o anel viário ou rodoanel como conhecemos, no entorno de Roma, tem sua força e interesse. Os personagens incluídos pelo diretor Gianfranco Rosi se prestam a uma ficcionalização de suas vidas, na medida em que interpretam a si mesmos, e o conceito os engrandece na tela. Temos um médico de socorro que atende os acidentes na estrada, moradores da margem de um rio que tiram dele seu alimento e sobrevivência, um estudioso das palmas, um velho pensador e ex-nobre turinês que divide com a filha um apartamento apertado, mas não perde a dignidade e o saber viver, entre outros eleitos.

O presidente do júri, Bernardo Bertolucci, diz ter-se assegurado de que a escolha não foi uma decisão soberana sua, mas uma compreensão paulatina do time de jurados. Sacro GRA, afirma, impôs-se como a melhor opção entre eles. Isso mesmo em favor do outro documentário em concurso, The Known Unknown, de Errol Morris, sobre Donald Rumsfeld. Com humor, o cineasta afirmou ter cogitado dar o prêmio de melhor ator ao ex-secretário de Defesa de George Bush por seu cinismo. Não há outra maneira de entender seu pensamento senão pelo reconhecimento de que as alternativas ficcionais disponíveis na seleção deixaram a desejar, embora bons filmes desfizessem essa impressão.

O caso mais significativo deu-se com o concorrente grego Miss Violence, Leão de Prata de melhor direção a Alexandros Avranos e o prêmio de melhor intérprete a Themis Panou. Pareceu, portanto, tocar os jurados a história sombria de um patriarca que apela a uma solução doméstica para enfrentar a crise e negocia as filhas pela moeda do sexo. O filme tornou-se um dos preferidos na cotação diária do festival com sua provocação, palavra em alta neste ano, mas muitas vezes vazia de conteúdo, caso de títulos de língua inglesa, como Tracks e Under the Skin, este com Scarlett Johansson na pele constrangedora de um alien.

Contrastavam com uma vitrine vasta de famílias disfuncionais, suicídios, incestos, violência e miséria, fator esse explorado com longos planos parados por Tsai Ming Liang em Stray Dogs, vencedor do Grande Prêmio do Júri, o humor e a qualidade de saber contar uma história em Philomena. Por essas vantagens, o drama simpático de Stephen Frears, embora convencional no formato, disparou na votação local e mereceu o prêmio de roteiro, por certo seu melhor recurso. Se o júri sugeriu ser a tradição um problema, afirmou-o de vez quando concedeu seu prêmio especial para A Mulher do Policial, filme alemão cujo modelo de narrativa em 59 capítulos se impõe a um drama esperado.

Nenhum deles foi atraente o bastante para o Leão de Ouro, o que abriu caminho a Sacro GRA, responsável por tirar a Itália do esquecimento na premiação desde que Assim Eles Riam venceu em 1998. Curioso que o mesmo diretor dessa obra, Gianni Amelio, concorria agora com L’Intrepido, um bom filme sobre a crise do país, conduzido de modo humanista e íntimo, mas fragorosamente descartado da premiação. A possibilidade de renovar seu nome entre os tarimbados cineastas italianos contrastou com a aversão clara dos jornais locais ao longa. Semelhante sentimento, por outros motivos, vitimou Marco Bellocchio no ano passado.

A Itália, fato é, voltou ao pódio das cinematografias vencedoras em Veneza neste ano. Bertolucci fez valer a Copa Volpi de interpretação feminina à veterana de teatro e televisão Elena Cotta, por Via Castellana Bandiera, no mais uma produção instigante que adapta à Sicília atual as regras do western. Não houve ascendência dele sobre as paralelas Horizonte e Semana da Crítica, ambas com boa estatística entre os prêmios para o cinema local. O diretor da mostra, Alberto Barbera, a quem coube a decisão de rejuvenescer a lista de competidores, opção aceitável, mas na prática talvez muito próxima do desastre, explicou aos jornais que ele e sua equipe escolheram os melhores italianos entre 155 títulos de ficção e 77 documentários. Em entrevista ao Corriere della Sera, diagnosticou: “O nível baixou, a crise empurra a se produzir com pressa, jogando fora o roteiro e todo o resto em busca de conseguir o sucesso fácil”.

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