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Número 766,

Sociedade

Refogado

Com 60 centavos

por Marcio Alemão publicado 15/09/2013 09h59, última modificação 15/09/2013 11h23
Em brevíssimo conto, a premiada Lydia Davis volta seu olhar sensível para o ritual de tomar um café. Por Marcio Alemão
Divulgação
Seinfield

A riqueza da vida cotidiana: Seinfield e Jason papeiam no café

Li este conto de Lydia Davis durante o fim de semana e não resisti em dividi-lo com vocês, torcendo para que muitos sejam restaurateurs ou pessoas que costumam entrar sozinhas em restaurantes e cafés. O livro chama-se Tipos de Perturbação e foi editado pela Companhia das Letras. O título do conto é o deste Refô.

“Você está em um café do Brooklyn, e acaba de pedir uma xícara de café, que custa sessenta centavos, o que lhe parece caro. Mas na verdade não é tão caro assim, se você parar para pensar que por sessenta centavos está alugando uma xícara e um pires, e um potinho de metal com creme, e um copo de plástico, e uma mesinha, e dois bancos. Também há, para seu consumo, caso deseje, além do café e do creme, água com gelo e ainda, cada um em sua embalagem própria, açúcar, sal, pimenta, guardanapos e ketchup.

Fora isso, é possível aproveitar, por tempo indefinido, o ar-condicionado que mantém o ambiente na temperatura ideal, a luz fria que ilumina todos os cantos do café, fazendo com que não haja cantos sombrios, a vista das pessoas que passam na calçada, caminhando no sol quente e no vento, e a companhia das pessoas dentro do café, que se divertem  bolando variações infinitas de uma piada à custa de uma ruiva baixinha e meio careca que está sentada ao balcão com os pés cruzados balançando enquanto tenta, com seu braço curto e branquelo, dar um tapa na cara do homem que está mais perto dela.”

Costuma ser assim: um café ou uma refeição podem ter outro sabor quando conseguimos usar esse olhar de espectador atento.

Não faz muitas semanas falei do casal e o celular, perdendo todos os dramas e comédias e tragédias rolando em sessão contínua ao redor, por todas as mesas, na rua ao lado, atrás do balcão do bar. Que pena que deixamos esse olhar de espectador para quando estamos em uma plateia clássica. Vale a pena usá-lo de maneira indiscriminada. A vida fica bem mais divertida. Comer, então, ganha um sabor mais que especial.

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