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Número 766,

Internacional

Síria

A partilha da pizza?

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 13/09/2013 11h41, última modificação 13/09/2013 12h22
A crise aberta pelas armas químicas na Síria pode ser superada por um acordo tácito entre os Estados Unidos e a Rússia. Por Antonio Luiz M. C. Costa
Nicholas Kamm / AFP
EUA

No meio do caminho, havia um Congresso. E um povo cansado de guerra

Três semanas após o ataque químico nas vizinhanças de Damasco, o impasse parece caminhar para um desfecho inesperado, capaz de resultar em uma mudança duradoura nas relações geopolíticas da região e talvez o menos ruim que se poderia esperar nessas circunstâncias. Pela oposição da Rússia, pela falta de apoio interno ou por ambas as razões, Barack Obama parece a ponto de desistir do ataque à Síria e aceitar a proposta russa pela qual Bashar al-Assad entregará seu arsenal químico à ONU para ser desmantelado.

Implicitamente, os EUA parecem desistir de vez de tentar forçar a vitória do Exército da Síria Livre, a facção relativamente pró-ocidental para os quais parte da mídia ocidental adotou a prática esdrúxula de chamar de “rebeldes regulares” ou mesmo “rebeldes oficiais”. Os demais, vinculados à Al-Qaeda, aos salafistas ou ao separatismo curdo, seriam “rebeldes rebeldes”?

“Oficiais” ou não, a imagem dos insurgentes sofreu mais reveses nestes dias. O historiador e politólogo belga Pierre Piccinin e o jornalista italiano Domenico Quirico, libertados no domingo 8 após cinco meses de cativeiro nas mãos das Brigadas Al-Farouk (“islâmicos moderados”) revelaram ter sofrido torturas nas mãos de seus algozes e ouvido uma conversa por Skype deles com supostos membros do Exército Livre, na qual admitiam ter realizado o ataque químico em busca de uma intervenção ocidental. Agnes Mariam el-Salib, madre superiora de um convento católico sírio, apareceu na mídia russa para afirmar que os vídeos do ataque com gás foram encenados. A revista alemã Bild revelou várias mensagens interceptadas pela espionagem alemã nos últimos quatro meses, nas quais militares sírios pedem permissão para usar armas químicas várias vezes, com respostas sempre negativas. A reportagem sugere que os comandantes as usaram sem autorização de Assad, mas há outras possibilidades.

Houve quem dissesse que Putin forneceu a Obama uma saída honrosa ante uma iminente derrota no Congresso, que o humilharia e poderia ser desastrosa para o restante de seu mandato. O Washington Post procurou levantar diariamente a posição dos congressistas a respeito da guerra e mostrou uma tendência bem negativa. Em 11 de setembro, seu infográfico apontava 256 deputados contrários ao ataque, 25 favoráveis e 152 indecisos e 41 senadores favoráveis, 23 contrários e 36 indecisos. Aos declaradamente contrários somara-se na véspera o líder republicano no Senado, Mitch McConnell, que enfrenta uma disputa difícil pelo direito de tentar sua reeleição pelo Kentucky. Pacifistas liberais e isolacionistas somaram-se à direita republicana, que recusa fortalecer a autoridade de Obama, principalmente quando o ganho estratégico para o país e suas transnacionais é duvidoso. No discurso do Tea Party, o ataque faria dos EUA “a força aérea da Al-Qaeda”.

No mínimo, a proposta russa deu a Obama um bom pretexto para adiar a votação. Na manhã da segunda 9, ao falar de improviso em Londres, o secretário de Estado, John Kerry, sugeriu que o ataque anunciado por Obama poderia ser cancelado se Assad entregasse “todas as suas armas químicas”. Mas “ele não o fará”, emendou. Minutos depois, a porta-voz do Departamento de Estado afirmou que Kerry fizera apenas “uma argumentação retórica”, mas de imediato o chanceler russo Sergei Lavrov declarou que recomendaria à Síria colocar seu arsenal sob supervisão de inspetores internacionais e seu colega sírio aceitou a ideia, apoiada no mesmo dia por Ban Ki-moon, David Cameron e políticos dos EUA. À noite, Obama anunciava uma oportunidade à diplomacia e no dia seguinte Damasco confirmou oficialmente a oferta e a promessa de aderir à Convenção de Armas Químicas e se desfazer definitivamente desse arsenal, tido como o quarto do mundo no gênero e o maior no Oriente Médio. Até o presidente de Israel, Shimon Peres, disse que o ataque não aconteceria se Assad desse passos genuínos para remover suas armas químicas. Faz sentido: para Tel-Aviv, como para Washington, a sobrevivência do regime baathista em Damasco incomoda bem menos do que o risco de suas armas químicas caírem nas mãos dos fundamentalistas.

O presidente francês, François Hollande, outra vez apanhado no contrapé, insistiu em apresentar ao Conselho de Segurança uma resolução que autorizaria automaticamente um ataque se as garantias sobre armas químicas não fossem consideradas suficientes, o que a Rússia não aceitará. Na quarta 11, Moscou apresentou os detalhes e etapas da proposta, considerada “muito explícita” pelos EUA, e supostas provas de uso de armas químicas por rebeldes. Enquanto isso, a ONU divulgava um relatório que comprova crimes de guerra de ambos os lados na Síria, inclusive sete massacres de civis pelo governo e um por rebeldes.

Na quinta 12, Kerry e Lavrov se encontraram em Genebra e Vladimir Putin publicou um artigo de opinião no New York Times que puxa com decisão a  orelha de Tio Sam: “É extremamente perigoso encorajar o povo dos EUA a se ver como excepcional” e Lavrov  anunciou a iminente criação de uma União Econômica Eurasiática que volta a unir parte da antiga União Soviética. Nos bastidores, Putin e Obama podem ter fechado um acordo tácito sobre esferas de influência, como o que vigorou entre Moscou e Washington após a crise dos mísseis de Cuba de 1962. Seria o fim, após exatos 12 anos, do ciclo da busca de hegemonia militar mundial e absoluta dos EUA, iniciado após os atentados de 11 de setembro de 2001, e o início de uma nova realpolitik?