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Número 766,

Economia

A derrocada das moedas emergentes

por Luiz Gongaza Belluzzo — publicado 19/09/2013 03h45
O anúncio de moderação proclamado pelo Fed mostrou que os saraus das conversíveis não admitem penetras
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Na esteira das injeções de grana do Fed, as moedas periféricas viveram mais uma vez a ilusão da conversibilidade

Na maré montante da chamada Facilitação Quantitativa promovida pelo Federal Reserve, a liquidez abundante impulsionou a busca pelas moedas dos ditos emergentes. Na esteira das injeções de grana do Federal Reserve, as moedas periféricas viveram mais uma vez a ilusão de frequentar os salões da conversibilidade.

O anúncio de moderação proclamado pelo chefão do Fed – a mansão dos pródigos abastados – barrou a entrada dos intrusos e mostrou que os saraus das moedas conversíveis não admitem penetras. As moedas dos emergentes, outrora cobiçadas, padecem as dores das desvalorizações agudas. O fortalecimento do dólar – a moeda de um país com funções universais – trata justos e pecadores com igual desdém. Desde o won coreano, a lira turca, passando pelo real brasileiro até a rupia indonésia e o rublo da Rússia, as moedas mais débeis sucumbem ao vendaval de ordens de venda emitidas pelos possuidores de riqueza em busca das promessas de redução dos diferenciais de rendimentos entre os ativos dos pobres e dos ricos.

Os investidores decidiram formar posições baixistas nos elos fracos dos mercados globalizados, independentemente dos “fundamentos” que supostamente sustentavam o garboso desempenho das moedas apreciadas. Os hedge funds que operam nos países que dispõem de mercados futuros de câmbio passaram a  liquidar suas posições.

A mudança brusca de expectativas torna as políticas monetárias prisioneiras da necessidade de evitar as fugas de capitais e de conter o avanço das desvalorizações. As medidas defensivas se restringem quase sempre à elevação das taxas de juro para defender a moeda local, aliadas a intervenções com swaps nos mercados de câmbio.

Importa, em tais episódios, repisar o caráter assimétrico dos ajustamentos dos balanços de pagamentos entre países de moeda forte e aqueles de moeda fraca. Ao contrário do que sustentam alguns analistas, os realinhamentos mencionados das taxas de câmbio não correspondem a quaisquer fundamentos, mas ocorrem movidos pelas “respostas excessivas” dos mercados financeiros, como afirmou recentemente o economista Alan Blinder na Minsky Conference de julho de 2013.

A fuga dos ativos e moedas de maior risco em direção aos títulos americanos permite o ajustamento moderado das taxas de juro nos Estados Unidos – mesmo depois do anúncio da redução na intensidade da Facilitação Quantitativa – e, em contrapartida, tensiona as políticas monetárias e fiscais dos países de moeda não conversível. Os Estados Unidos, em razão da capacidade de atrair capitais para seus mercados, podem dar-se ao luxo de reduzir a taxa de juros sem afetar o curso do dólar.

A pressão externa sobre as economias emergentes torna mais difícil a excecução de políticas fiscais e monetárias anticíclicas. Em um ambiente de baixo crescimento, a elevação dos juros para defender a moeda deprime ainda mais a capitalização dos ativos mobiliários, afeta o serviço da dívida pública, atinge a saúde financeira das empresas machucadas pelo faturamento minguante e, last but not least, aumenta a prudência dos bancos.

A abertura financeira inverteu as determinações do balanço de pagamentos. Nos momentos de farta liquidez internacional, países com taxas de câmbio flutuantes, dotados de moedas frágeis, ou seja, desprezível participação nas transações internacionais, correm o risco da valorização indesejada da moeda local ou estão obrigados a realizar operações de esterilização dos efeitos monetários da expansão das reservas.

O montante relativamente elevado de reservas que os bancos centrais devem manter para garantir a estabilidade do câmbio é um dos sintomas da impossibilidade de adoção da flutuação cambial pura. Como os títulos de riqueza em moeda local e os denominados em dólares são substitutos muito imperfeitos, a arbitragem entre juros internos e externos não logra a convergência das taxas e acaba por impor a “administração” do câmbio.

Muitos países da periferia, diz o economista Michel Aglietta, revelam preocupação com a manutenção de suas vantagens competitivas e com a volatilidade dos movimentos de capitais. “Eles não podem, portanto, permitir que o mercado jogue com a taxa de câmbio. Alguns apreenderam à custa de muito sacrifício que valorizar a taxa de câmbio nominal em um ambiente de fragilidade financeira pode desencadear um processo deletério de desconfiança. Regimes de câmbio intermediários, de flexibilidade controlada, constituem um caminho estreito para a coordenação entre os diferentes objetivos de política monetária”

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