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Número 765,

Sociedade

Tragédias permanentes

por Walter Maierovitch publicado 08/09/2013 09h34
Atualmente, 20 países mantêm arsenais de armas químicas e bacteriológicas
arma química-sarin

A Síria enfrenta acusações de uso de gás de ataca o sistema nervoso e que matou ao menos 1.400 rebeldes em agosto

A área litorânea de Latakia a Tartús concentra os sírios alauítas. Caso caia o regime ditatorial de Bashar al-Assad, pode virar um enclave. Ao redor de Alepo até Daraa, passando pela capital Damasco, estão os sunitas. Encostado às Colinas de Golã e na fronteira com a Jordânia encontra-se o chamado “setor druso”, que engloba as cidades de Daraa e Suwayda. No norte, os curdos dominam o território conhecido como Curdistão sírio e cuja cidade principal é Hasaka. Ismaelitas estão ao lado do coração do país, formado, além da capital, pelas cidades de Hama e Homs. Os cristãos pipocam pelo território em médias concentrações e os beduínos circulam pelo deserto. O Estado sírio, nas suas fronteiras formais, vê-se por esse quadro, não existe mais unitariamente. No território estão presentes interesses de potências planetárias e regionais.

Os cinco integrantes com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU têm envolvimento. A França e a Grã-Bretanha, com a veleidade de reconquistarem papel ao tempo do domínio colonial, fornecem armas aos insurgentes e, por tabela, aos jihadistas que tentam derrubar Assad. Do lado oposto, e em apoio ao ditador, estão a China e a Rússia, esta que, nos portos sírios, mantém bases navais. Os atores regionais contra Assad são a ainda laica Turquia e os sunitas Catar e Arábia Saudita. A sustentar Assad estão os xiitas do Irã, com os grupos Pasdaran e o Basij a adestrar alauí-tas e xiitas sírios, como, por exemplo, as diversas milícias. Há ainda o braço armado do partido libanês Hezbollah. Enquanto isso, o outro ator, Israel, destaca o risco de o arsenal de armas químicas passar para as mãos de terroristas islâmicos.

Num cenário com copioso fornecimento de armas, mercenários e rios de dinheiro para manter os combatentes, desenvolve-se uma guerra de propaganda. Assim, informações e desinformações são difundidas pelo planeta.

Todos os envolvidos sabem que a Síria, dado o potencial nuclear de Israel, começou, nos anos 1970, a armazenar armas químicas, chamadas pelos 007 da inteligência ocidental como “bombas atômicas dos pobres". Segundo a edição de março da LiMes, respeitada revista italiana de geopolítica, a Síria tem no momento 650 toneladas de gás sarin, 200 toneladas de gás iprites (mostarda) e uma quantidade pouco menor do gás asfixiante e letal VX. As instalações principais estariam em Masyaf, Furqlus e Han Abu al-Samat.

A revolta contra Assad teve início em 15 de março de 2011 e, em razão dos protestos de jovens contra uma lei em vigor desde 1963, que colocava o país em permanente estado de emergência. Ou seja, permanente proibição de reuniões e protestos contra o regime, com a ameaça de prisão aos opositores. Não demorou até a revolta virar guerra civil e se espalharem boatos sobre o uso de armas químicas pelas forças de sustentação de Assad.

Na cidade de Homs, em 23 de dezembro de 2012, o ditador foi acusado de permitir o uso de gás sarin e imagens de vítimas foram mostradas pela NBC News e ainda estão no YouTube. Coube a Israel sair em defesa de Assad e assegurar que o gás utilizado tinha apenas efeito lacrimogêneo. Acusações mútuas de emprego de gás que ataca o sistema nervoso continuaram, porém, até a tragédia de agosto último, com 1.429 mortos, 426 crianças entre eles.

A partir dessa tragédia, começou-se a falar, com Susan Rice, assessora de Barack Obama, à frente, em aplicação do princípio humanitário da “responsabilidade de proteger”. Tudo isso diante de uma Síria que, em 1993, não subscreveu a Convenção das Nações Unidas sobre armas químicas. Seu cumprimento ficou sem fiscalização e, atualmente, 20 países mantêm arsenais de armas químicas e bacteriológicas.

A propósito, na Primeira Guerra Mundial, os alemães usaram o gás mostarda para tirar os adversários das trincheiras, e o primeiro ataque deu-se em Ypres, na Bélgica, em abril de 1915.  Na Segunda Guerra, os alemães empregaram gás não nas batalhas, mas nas câmaras para matar judeus. Na Guerra do Vietnã, em 1975, os americanos despejaram o agente laranja, composto químico desfolhante, e mataram e deformaram famílias inteiras, além dos vietcongues. Em 1988, o então ditador iraquiano Saddam Hussein exterminou cerca de 5 mil curdos com gás sarin.

O uso de armas químicas em conflitos repete-se e se acomoda aos sem condições de partirem para uma cyberwar. Espera-se, na reunião do G-20, um acordo entre Obama e Vladimir Putin. Nos meios diplomáticos europeus fala-se em substituição de Assad por um alauíta conciliador. E poderá ser assegurado ao ditador um exílio onde não será molestado com pedido de extradição pelo Tribunal Penal Internacional

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