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Número 765,

Cultura

Saúde

Quando tudo falha

por Riad Younes publicado 07/09/2013 10h34
O tratamento pioneiro com radium-223 surge como saída para pacientes com câncer de próstata em estado de metástase

Câncer de próstata é uma doença comum. Tratado em fase precoce, sua cura é rotineira. Infelizmente, um quinto dos pacientes são diagnosticados com a doença disseminada além da glândula. Metástases, como são chamados os tumores que crescem longe do tumor primário original, podem afetar qualquer órgão. No caso do câncer de próstata, metástases para os ossos são as mais frequentes.

Quando isso ocorre, o oncologista tem várias opções para lidar com a situação. A manipulação hormonal, através de bloqueio da produção de hormônios pelo paciente e até a quimioterapia convencional podem ser instituídas. Geralmente, revertem o quadro clínico e controlam a doença. Novamente, muitos pacientes escapam a esse controle, e as metástases voltam a crescer e a produzir sintomas e distúrbios que pioram a qualidade e a quantidade de vida dos pacientes. Metástases ósseas afetam drasticamente o doente, produzindo dores e dificuldades de movimentação, além de fraturas eventuais. Quando a quimioterapia não consegue controlar mais a evolução dos tumores, restam poucas opções na mão do oncologista, além de tratamentos puramente paliativos.

Recentemente, resultados impressionantes foram divulgados na revista New England Journal of Medicine, em estudo liderado pelo doutor C. Parker, do departamento de urologia do Hospital Royal Marsden, em Surrey, Inglaterra. A pesquisa avaliou o impacto da injeção de radium-223, composto radioativo cujo alvo preferencial são células tumorais alojadas em ossos. Conversamos com doutor Fernando Maluf, médico oncologista e chefe do Serviço de Oncologia Clínica do Hospital São José, em São Paulo, sobre esse estudo.

CartaCapital: Como o senhor classifica o estudo em questão?
Fernando Maluf: Esse estudo relatou um dos achados mais relevantes nas últimas décadas em pacientes com câncer de próstata avançado.

CC: Qual foi o objetivo da pesquisa?
FM: Esse importante estudo europeu avaliou a eficácia de um novo remédio chamado radium-223, em 921 homens com câncer de próstata avançado com metástases ósseas e que já haviam falhado os tratamentos hormonais convencionais e, em maior parte, quimioterapia.

CC: Como o radium-223 age?
FM: Diferentemente da quimioterapia, o radium-223 é uma partícula radioativa que se liga ao osso, quando libera uma radiação chamada partícula alfa, que pode ser letal para as células malignas do câncer de próstata alojadas no arcabouço ósseo.

CC: Como foi feito o estudo?
FM: Os pacientes foram divididos, aleatoriamente, em dois grupos: os que receberam seis doses mensais intravenosas de radium-223 e os que receberam seis doses de placebo. Nenhum dos pacientes sabia a que grupo foi alocado (estudo duplo-cego). Os pacientes que receberam radium-223 apresentaram maiores chances de sobrevivência, com redução do risco de morte em 30%, além de menos dores ósseas e maior qualidade de vida.

CC: Há muitas complicações ou efeitos colaterais associados ao tratamento?
FM: Não. Os efeitos colaterais foram brandos. O medicamento foi aprovado recentemente nos EUA pela FDA. Graças aos resultados, está sendo estudado em fases mais precoces da doença.

CC: Está disponível no Brasil?
FM: Essa droga encontra-se disponível nos EUA e no momento está em análise no nosso país, com aprovação prevista para junho de 2014. Portanto, atualmente, os pacientes brasileiros têm de viajar para receber esse tratamento.

CC: Imagino que o remédio não esteja indicado para todos. Quem seriam os pacientes que poderiam considerar esse tratamento inovador?
FM: O radium-223 é uma excelente opção para os pacientes com doença metastática exclusivamente óssea e que não são mais candidatos a quimioterapia pela idade ou doenças associadas ou naqueles que falharam a quimioterapia convencional.

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