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Número 765,

Cultura

Cinema

Os monstros da comédia

por Rosane Pavam publicado 14/09/2013 09h58, última modificação 14/09/2013 11h28
"Operação San Genaro", de Dino Risi, evoca o clássico "Os Eternos Desconhecidos", que mudou a história do humor no cinema. Por Rosane Pavam
Photo12/AFP
Operação San Genaro

Nino Manfredi, o Dudu, e o Don Vincenzo de Totò em Operação San Genaro

Dante cruciani é um expert napolitano em arrombamento de cofres. Mais napolitano que expert. Na periferia romana, o veterano interpretado por Totò em Os Eternos Desconhecidos demonstra a cinco marginais, vividos, entre outros, por Marcello Mastroianni e Vittorio Gassman, o método de violar fechaduras de Fu Chi Min. Não é um chinês o inventor da técnica, conforme assegura. “Fu significa o que se foi, o morto. E Chi Min é um sobrenome veneziano”.

Em 1958, esse filme de Mario Monicelli (1915-2010) parodiava Rififi, sucesso de bilheteria lançado três anos antes em torno de um assalto. A ideia era trabalhar ao revés da tensa ambientação do diretor Jules Dassin, aproveitando-se da memória do público em relação ao enorme sucesso de bilheteria e ambicionando-a sem segredo. Mas, ao contrário dos assaltantes de Rififi, aqueles sem eira nem beira de Monicelli tinham a cabeça dura como as paredes que precisam romper até alcançar o cofre.

Como asseguraria posteriormente em dezenas de entrevistas, Monicelli não imaginava, com I Soliti Ignoti, operar uma revolução cinematográfica. Contudo, ao filmar o roteiro dos amigos Suso Cecchi d’Amico, Age e Scarpelli, um dos maiores diretores italianos se propunha a condenar, pela via do humor frio e reflexivo, os rumos da sociedade de então. O sucesso do filme fundava um gênero, a commedia all’italiana (comédia à italiana), que por duas décadas perturbaria a boa imagem do espectador em relação a si mesmo e ao boom econômico do pós-guerra.

Cáustica, sem imaginar uma bondade de origem em padres, patrões ou policiais, desrespeitosa da ordem estabelecida e até mesmo da invenção cinematográfica promovida pelo trio de diretores formado por Visconti, Fellini ou Antonioni, a commedia renovava as promessas do neorrealismo, gênero a advogar a exposição da realidade e que, no momento, apresentava sinais de exaustão. Tudo dentro desses filmes cômicos acontecia no limite do possível, por isso mesmo, inaceitável. Era um gênero disposto a reencenar a miséria, “o melhor roteiro para a comédia”, conforme ensinara Totò, tornando para isso secas, impiedosas e certeiras as interpretações de seus grandes atores, como Alberto Sordi, Nino Manfredi ou Ugo Tognazzi.

Porque a commedia all’italiana refina o humor, o Brasil, de grande produção cômica, parece reivindicar aprender com ela. No ano passado, uma reedição de Os Eternos Desconhecidos aportou em uma caixa de DVDs da distribuidora Versátil que incluía Seduzida e Abandonada e Divórcio à Italiana, de Pietro Germi. Agora, a Cult Classic aposta em um filme aqui pouco conhecido de Dino Risi (1916-2008), Operação San Genaro, que evoca o clássico de Monicelli desde a participação de Totò como um veterano bandido até a exigência de um morto na comédia, também inaugurada no clássico de 1958. Em seu filme de 1966, o cineasta revive Os Eternos Desconhecidos em Nápoles.

Fernando Brito organiza a curadoria dos clássicos da Versátil. Dele partiu a ideia de reeditar títulos cômicos do período, pelo menos aqueles em bom estado de conservação desde a origem, e cujos direitos autorais fossem localizáveis e negociáveis. “Embora o mercado de homevideo tenha decrescido em até 30% no Brasil, decidimos que o cinema italiano não poderia ser esquecido”, diz. “Os filmes da commedia têm uma tiragem inicial de mil exemplares porque com eles, ao contrário do que acontece com uma obra de Fellini (em que esse número pode eventualmente dobrar), temos de vencer duas barreiras de desconhecimento, a do espectador e do comprador, aquele das locadoras.”

Brito acredita que o Brasil, apesar da carência de títulos, ainda se pode considerar razoavelmente bem servido de um gênero que, a rigor, jamais pregou a novidade. “A commedia all’italiana se chamou all’italiana porque nasceu como um depreciativo, para designar uma ‘coisa à italiana’, como se dizia nos anos 1960. Depois se tornou um traço distintivo”, ensinou Monicelli em um documentário feito por ocasião dos 50 anos de I Soliti Ignoti, mas cujos direitos não foram cedidos para a edição brasileira. “O fato é que a commedia all’italiana não se originou no pós-guerra, não foi inventada em minha geração, mas muitíssimo tempo atrás, para divertir em torno da fome, da miséria e da indigência. Um divertimento nascido de coisas em si não divertidas.”

Operação San Genaro, de 1966, é um seguidor desse preceito tornado universal por Maquiavel e Boccaccio. O filme ironiza a fé católica e a pobreza de perspectivas experimentada pelo “italiano duas vezes”, como se referia Pietro Germi ao povo meridional. O tesouro da igreja do padroeiro São Genaro será, aqui, o alvo de ambiciosos ladrões da América. Interpretado por Nino Manfredi entre a bondade e a estupidez, o bandido napolitano Armandino Girasole, o Dudu, aceita ser o braço italiano da operação por indicação do chefão Don Vincenzo, interpretado por Totò, que na cadeia vive o respeito de seus pares e sorve regalias. E assim caminha Dudu até compreender a natureza do roubo, que abala suas crenças religiosas extremas.

O próprio São Genaro, fincado em estátua, mostrará o caminho da luz ao cômico gângster, em sequências nas quais estará visível a iconoclastia de Risi. De que vale a técnica sem a inspiração é o que o filme questiona, enquanto debocha sem piedade da sabedoria norte-americana na armação do golpe. O cineasta deplorava o termo commedia all’italiana e, na autêntica linha dos representantes do gênero, pregava demoli-lo. “Por que essa obstinação?”, perguntava-se. “As coisas feitas nos Estados Unidos da América não recebem a designação all’americana. Como os críticos amam os rótulos, proporei este: a commedia all’italiana como a definem os críticos all’italiana.”