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Número 765,

Economia

Desinformação surpreendente

por Delfim Netto publicado 11/09/2013 12h05
O espanto dos analistas com o crescimento de 1,5% do PIB prova a dissonância existente entre o enorme pessimismo do mercado e a realidade da aceleração da taxa entre os trimestres
Divulgação
pib brasil

O espanto de analistas mostra o pessimismo do mercado nos últimos meses e a realidade de aceleração da taxa de crescimento

A reação no mercado financeiro, que classificou de “surpreendente” o crescimento de 1,5% do PIB no segundo trimestre do ano, apenas revela a surpreendente desinformação dos analistas. O espanto que demonstraram veio confirmar a dissonância que existe entre o enorme pessimismo que o mercado tem manifestado nos últimos meses e a realidade da aceleração da taxa de crescimento entre cada trimestre de 2013 e seu homólogo, em 2012.

No primeiro semestre deste ano, o Brasil cresceu 2,6%, o que não garante, obviamente, a repetição de resultado semelhante no segundo semestre, mas que pode acontecer dependendo do sucesso dos leilões de infraestrutura e de energia, especialmente petróleo. Houve a contribuição do agronegócio, que cresceu mais de 3% no semestre, e a recuperação do investimento em setores da indústria onde o que era negativo passou a ser positivo, e até mesmo um pequeno avanço nas exportações, reduzindo a distância no balanço com as importações.

De forma semelhante é preciso reagir ao pessimismo inoculado pelos críticos internos em relação às medidas da Fazenda e do Banco Central para defender a economia brasileira dos efeitos da política de afrouxamento monetário dos Estados Unidos, que deflagrou a guerra cambial. Os recentes ataques especulativos que estão provocando enormes turbulências nos mercados dos países emergentes mostram o acerto das decisões do governo.

O fato é que, a não ser que se aceite uma lógica em que cessando a causa não cessa o efeito, fica complicado explicar que, “se a política de laxismo monetário não era uma das causas da desvalorização do dólar – que valorizava a moeda dos emergentes –, por que a simples expectativa de mudança da política está valorizando o dólar e, simetricamente, desvalorizando a moeda dos emergentes?” Está na hora de pedir ajuda à história, para melhorar o entendimento dos críticos e prevenir os operadores.
No acordo de Bretton Woods, em 1944, concluiu-se que, para ter uma política econômica que cuide de manter plenamente ocupado o seu fator de produção não comercializável mais escasso, é preciso que cada país tenha: uma política fiscal que controle o nível discricionário da demanda pública; uma política monetária que fixe a taxa de juro real que controla a demanda privada de forma a produzir uma inflação estável e parecida com as dos competidores internacionais; uma política cambial que ajuste a taxa de câmbio real para manter o balanço em conta corrente em equilíbrio ao longo do ciclo econômico (com uso e recuperação de reservas) e, finalmente, um controle do movimento de capitais.

Apesar de alguns defeitos antecipados quando se criou o sistema, ele funcionou razoavelmente. Quebrou quando os EUA foram levados a desvalorizar o dólar em relação ao ouro. A partir desse momento toda aquela regulação cambial foi sendo atropelada pelos fatos e acompanhada pela destruição paulatina do controle do sistema financeiro construído nos anos 1930 em resposta à crise. Bretton Woods foi substituído pela livre flutuação da taxa de câmbio e uma liberdade crescente do movimento de capitais.

O “aperfeiçoamento” foi ajudado por renomados economistas que inventaram, a posteriori, a teoria de que os mercados financeiros eram “perfeitos” e que, se deixados a si mesmos, eram “autorreguláveis” e tinham uma “moralidade ínsita”. Tratava-se de “pseudociência” contra toda a evidência histórica secularmente acumulada: o sistema financeiro sem regulação retorna sempre ao local do crime.

Os países que abdicaram da taxa de câmbio fixa e aceitaram a livre movimentação dos capitais, descobriram que ela era uma ilusão. Os movimentos monetários do Banco Central americano determinam as flutuações de suas taxas de câmbio e condicionam suas políticas monetárias. A nossa taxa de câmbio está sujeita às mesmas pressões que pesam sobre a maioria dos países emergentes, mas dispomos, em compensação, de um mercado de câmbio extremamente sofisticado e bem regulado, no qual existem instrumentos de intervenção governamental (swaps) em que a operação é nominada em dólares, mas liquidada em reais. Elas permitem a substituição do uso das reservas até que a taxa de câmbio atinja um patamar estável. Em segundo lugar, dispomos de 370 bilhões de dólares de reservas, o que nos dá segurança e tempo para qualquer ajuste.

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