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Número 765,

Cultura

Festival de Veneza

Adeus ao mercado

por Orlando Margarido — publicado 08/09/2013 09h59
Documentário revê Lino Micciché, analista das novas cinematografias
Lino Micciché

O bom combate. Ativista da crítica com humor, praticada em amplo espectro

Nos anos 1960, Lino Micciché teve papel preponderante na divulgação das novas cinematografias, entre elas a latino-americana. Com o Cinema Novo não foi diferente e o crítico italiano tornou-se um amigo do Brasil. Acolhia as obras não comerciais por duas vias, o Centro Sperimentale de Cinema, em Roma, que presidiu, e a Mostra de Pesaro, fundada por ele e Bruno Torri, onde Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha estudaram e exibiram seus filmes. Glauber surge duas vezes no documentário que Francesco Micciché realizou sobre o pai, morto em 2004, aos 70 anos. Além de um retrato carinhoso, Lino Micciché, Mio Padre. Una Visione del Mondo, exibido no 70º Festival de Veneza, evento que o crítico também conduziu, é um detalhado histórico com imagens de arquivo de seus ofícios.

A atuação em várias frentes lembra a de Paulo Emilio Salles Gomes no Brasil. Não apenas pela tarefa da crítica, que executou por mais de três décadas na publicação Avanti!, do Partido Socialista Italiano, o PSI. Abordava o cinema em amplo espectro, também na direção do sindicato da categoria. “Era um combatente, porque o cinema dos anos 1960 e 1970 exigia uma guerra para libertá-lo dos condicionamentos do mercado”, diz Francesco a CartaCapital. Comprou uma briga, depois perdida, com os anúncios publicitários em meio à exibição de filmes na tevê.

Não apenas esteve próximo da onda neorrealista como dirigiu com Lino Del Fra e Cecilia Mangini o documentário All’Armi, Siam Fascisti, sobre a ascensão e queda do fascismo. Publicaria livros de referência sobre o perodo e analisaria as obras de Visconti e Antonioni. “Suas duas grandes paixões foram o cinema e o que escrevia sobre ele. Mesmo no jornal suas críticas eram ensaios, gostasse muito ou pouco do cineasta que analisava.”

A visão controversa do cinema ele levou à tevê, veículo que não condizia com os longos parênteses em sua fala. Para manter a atenção do espectador, comparecia diante da câmera com camisetas extravagantes. Não entendia a crítica incompatível com o humor. “Bernardo Bertolucci me contou que ele disse ter passado uma das noites mais felizes da vida a seu lado e de Gianni Amico, mas principalmente de Gilberto Gil, que havia se apresentado em Pesaro. Ele amava o Brasil.”