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Número 764,

Cultura

Cinema

Sublime obsessão

por Orlando Margarido — publicado 31/08/2013 08h09, última modificação 31/08/2013 09h18
O centenário cineasta Manoel de Oliveira surpreende em "O Estranho Caso de Angélica". Por Orlando Margarido
Divulgação
O Estranho Caso de Angélica

Pilar López Ayala, devaneio

O Estranho Caso de Angélica
Manoel de Oliveira

O que esperar de um cineasta centenário e o mais longevo em atividade? Por certo nos surpreender não estaria entre as expectativas, mas é o que Manoel de Oliveira faz neste O Estranho Caso de Angélica, estreia de sexta-feira 30. Um tanto porque há uma aproximação com o registro fantástico pouco usual em seu cinema. Depois, por se servir desse recurso para nos confrontar com uma realidade mais crítica, em condição temporal incerta, com tom do passado e olhar do presente. O estranho contido no título abarca não somente as situações, mas os personagens, a começar pelo fotógrafo Isaac (Ricardo Trêpa, neto de Oliveira), o tipo recluso e obsessivo que nos conduz a um universo por vezes onírico.

A obsessão ganha forma quando ele é chamado a realizar a última foto de uma jovem morta em seu velório (Pilar López de Ayala). Encanta-se com seu rosto e passa a revê-lo com frequência em devaneios, enquanto procura se isolar dos demais hóspedes da pensão onde se instala. É dali também que observará um grupo de agricultores que, no meio urbano, busca arar a terra que lhe resta. Oliveira preparou esse roteiro para filmá-lo durante a Segunda Guerra Mundial e dar conta do poderio nazista. Foi impedido pelas autoridades de Salazar. Aos 105 anos, realiza o projeto como se atrelado à época e, em vez de surgir anacrônico, nos sugere o sublime e a poesia.

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