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Número 764,

Economia

Prodígios da comunicação

por Delfim Netto publicado 06/09/2013 09h19
Os mercados têm absorvido os efeitos das enormes tensões criadas por um anúncio equivocado da redução do estímulo fiscal em curso nos Estados Unidos

Talvez nem todos esperassem a unanimidade, mas certamente foi sem surpresa que os “mercados” receberam a decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central que, na reunião de 28 de agosto, elevou a taxa básica de juros em mais meio ponto, para 9% ao ano. Embora não se conheça ainda a fundamentação dos votos (o que só acontecerá com a divulgação da Ata do Copom nos próximos dias), o fato de ter sido uma decisão unânime deve ajudar a diminuir, numa certa medida, o nervosismo em nossos mercados financeiros e de câmbio.

Nos últimos 90 dias, esses mercados têm absorvido os efeitos das enormes tensões a que vem sendo submetida a economia mundial por causa das expectativas criadas por um anúncio equivocado da  redução do ritmo da injeção mensal de 85 bilhões de dólares na compra de ativos pelo Federal Reserve, pilar central da política monetária americana.

O equívoco foi alimentado pela divulgação de um confuso comunicado sobre a reunião do Comitê Monetário do FED em 22 de maio, cujos termos não deixaram claro se a maioria dos seus membros concordaria com o começo dos cortes do estímulo monetário já em setembro, sem esperar a queda da taxa de desemprego para 6,5% nos Estados Unidos, conforme fora acordado no início do programa por insistência de Ben Bernanke. Embora ela fosse de 7,3%, na ocasião, vinha caindo mês a mês, o que o mercado adotou como sinal verde para a antecipação do início dos cortes já em setembro.

Criada a expectativa, o que se poderia esperar com a notícia da redução dos estímulos monetários senão o aumento da taxa de juros nos EUA, atraindo capitais e valorizando o dólar em relação às demais moedas? A cada reunião do Federal Reserve, os operadores do mercado procuram prever quando começará a mudança da política monetária americana, dando origem a movimentos especulativos que resultam em grande desvalorização de todas as moedas, principalmente as dos países emergentes, em relação ao dólar. Foi assim com a reunião dos dias 30 e 31 de julho, que produziu uma Ata que é um prodígio de comunicação para não explicar nada que pudesse ser explicado, mas um prato cheio para ajudar a especulação nos mercados, como se lê nos textos a seguir, numa escolha aleatória: 1. “Apesar de que, em geral, todos concordem com o atual parâmetro de desemprego de 6,5%, houve discussão sobre a mudança desse nível usado para orientar os agentes sobre o viés para a alta dos juros; mas não houve consenso sobre o problema”. 2. “Mesmo tendo sido apresentadas opiniões a respeito de melhoras cumulativas no mercado de trabalho, quase todos os membros do Comitê concordaram que uma mudança no programa de compra de ativos ainda não era apropriada, mas alguns membros chamaram a atenção para o plano articulado no mês anterior, sugerindo que pode estar próximo o momento de desacelerar um pouco o ritmo das compras como desenhado naquele plano condicional.”

No Brasil, o efeito mais visível das tensões produzidas pelos movimentos especulativos revelou-se no nervosismo do mercado cambial. A taxa de câmbio deu a impressão de que estava fora de controle e assistimos a uma queda dos preços dos papéis do Tesouro, devido à alta da taxa de juros que induziu os investidores a mudarem seus portfólios. As respostas das autoridades monetária e fiscal foram prontas e adequadas. A Secretaria do Tesouro recomprou papéis para dar saída menos onerosa aos seus portadores. O Banco Central fez intervenções para reduzir a volatilidade, sem se comprometer com a defesa do nível da taxa. A decisão de dar liquidez diária e assumir o papel de fornecedor de hedge para o mercado de câmbio, como já fez no passado em outros momentos delicados, foi correta, transparente e sinalizadora. De início, foi suficiente para tranquilizar o mercado.

Por fim, o fato de ter sido o real a moeda que mais se desvalorizou no episódio é irrelevante. Não se pode esquecer de que nossa moeda foi a que mais se valorizou ao longo dos anos, como consequência da política equivocada de usar o seu valor no controle da inflação. Um erro que nos fez pagar um alto custo no desenvolvimento industrial.