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Número 764,

Cultura

Exposição

O esporte das imagens

por Orlando Margarido — publicado 02/09/2013 08h35
Sebastião Salgado encena a superação em regiões remotas
Sebastião Salgado
Mulheres mursi

Mulheres mursi no Parque Nacional Mago, Etiópia, em 2007

Genesis
Sebastião Salgado
Sesc-Belenzinho, São Paulo
De 5 de agosto a 1° de dezembro

Genesis, a mais recente série fotográfica de Sebastião Salgado, é um exemplo eficaz do caráter de seu ofício. Temos, por um lado, o método heroico recorrente na realização dos grandes ciclos como Terra e Exodus, não por acaso títulos de fonte mítica ou bíblica. Como um explorador daquilo que ainda está oculto aos olhos públicos, Salgado se embrenha em remotas regiões do planeta ou sai em busca das situações extremas, como aconteceu no caso do garimpo de Serra Pelada. Mas, se ao fotógrafo mineiro radicado em Paris não se pode negar a valentia, também não se pode deixar de ressentir uma abertura ao casual, ao fato menos perseguido e projetado, possível na arte do instantâneo. Nesse sentido, haverá sempre a espera pelo impactante e pela superação, como numa espécie de esporte das imagens.

As 245 fotos da nova série, no preto e branco usual, não desapontarão quem busca confirmar a proeza. Com o assunto do meio ambiente em voga, impressionam retratos como os das mulheres da etnia mursi e surma, na Etiópia, as últimas a usar acessórios redondos para esticar os lábios, ou do xamã do clã Mentawai, em Sumatra Ocidental, no preparo de um filtro do saguzeiro. A vocação de perseguir o intocado muitas vezes se dá pela paisagem, não pelo contato humano, a exemplo de um monumental iceberg numa ilha da península antártica.

No recente documentário Revelando Sebastião Salgado, de Betse de Paula, que sacraliza seu trabalho e o apresenta incontestável, não fica claro por que a aventura é tão vital a Salgado quanto a imagem. Mas intuímos que, economista de formação, ele detecte no funcionamento do sistema político-social a raiz do problema das populações e o quadro natural do planeta, mesmo em seus pontos mais remotos. A visão custou-lhe críticas como a de estetizar a miséria, postura da qual ele desvia agora ao se valer do belo em sua função mais persuasiva.

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