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Número 764,

Cultura

Crítica

Garibaldi cavalga

por Mino Carta publicado 30/08/2013 08h32, última modificação 02/09/2013 08h56
Gianni Carta descerra as razões de um mito que me fascina desde a infância. Por Mino Carta
Divulgação
Garibaldi

Lançamento: a esmerada edição da Boitempo

Giuseppe Garibaldi era um marinheiro que aprendeu a cavalgar no Rio Grande do Sul, revolucionário de barco, a pé ou a cavalo. Além disso, desde a infância, vive como herói na minha memória. Publicado pela Editora Boitempo, chega às livrarias na próxima semana um livro a meu ver muito importante a respeito de Garibaldi, a partir de uma visão inédita para reconstituir os fatos e as personagens que construíram o mito. O mito do eterno gaúcho, que o próprio herói estimulou a vida inteira.

O livro, Garibaldi na América do Sul, é de autoria do meu filho Gianni, e esta crítica exige uma explicação. Gianni prossegue dentro de uma tradição familiar cujo patriarca é meu avô materno, Luigi Becherucci, e prossegue com meu pai, Giannino, deságua nos filhos dele, Luis e Mino, e ainda avança, impávida até correr o risco de continuar pela mão dos meus netos.


Gianni exerce a profissão desde os tempos da universidade. Trabalhou em publicações, rádios e tevês estrangeiras e comigo antes na IstoÉ, depois em CartaCapital desde sua fundação. Tirocínio e talento amplamente provados como repórter, às vezes de guerra, correspondente em Nova York, Paris e Londres, entrevistador agudo, inclusive de personalidades de dimensão mundial. Ao longo da carreira, publicou quatro livros, o penúltimo é o resultado de um longo depoimento de um grande colega e caro amigo, Reali Júnior.
Quanto a Garibaldi, Gianni viveu com ele por dez anos e houve ocasiões em que dei com o herói sentado à nossa mesa na hora do jantar. O entendimento foi natural entre ligúrios, como se daria se também participasse outro Giuseppe, o Mazzini, notável ideólogo de uma revolução que não se deu por obra de um certo conde de Cavour, articulador competentíssimo do Risorgimento à sua moda. Conservadora. Mazzini era genovês, como eu, Garibaldi nizzardo, ou seja, nascido na atual Nice, ex Nizza, então Ligúria, onde se falava o niçarte, dialeto de origem genovesa.


O livro, nascido como tese de doutorado, levou Gianni a uma pesquisa de meticulosidade infinda, que o conduziu a lugares os mais diversos, entre eles Rio Grande do Sul, Argentina, Gênova, Roma, Uruguai. Houvesse até um mínimo fiapo de memória garibaldina, e lá ia Gianni. Deu-se que em oportunidades especiais, Alexandre Dumas, fantasioso enviado especial à expedição dos Mille, que derrubou os Bourbon do Reino das Duas Sicílias, ou seja, de todo o sul da Itália, comparecesse às reuniões da família de Carta Júnior. Belo conviva, diga-se.

Em dez anos, a obra passou por retoques, atualizações, repensamentos em relação aos seus propósitos iniciais. No meu entendimento, ganhou muito com isso. Perdeu o tom acadêmico, rigidamente ancorado em formas e fórmulas predeterminadas por uma espécie de imposição de álgida solenidade, aproximou-se da linguagem jornalística que não desdenha, pelo contrário, cultiva a qualidade literária. Gianni sabe disso.


Pretendia esclarecer, já nas primeiras linhas, faço-o agora, que o livro me levou a perceber melhor aquele herói da minha infância, os porquês do seu fascínio, as razões da perenidade do mito. Pois é, falamos do eterno gaúcho. Estou convencido de que Gianni oferece uma contribuição significativa, entre outras, à história do Brasil, ao situar Garibaldi na moldura da chamada Revolução dos Farrapos, nem sempre bem contada, a bem das instâncias e conveniências dos donos do poder gaúcho.


Neste exato instante, lamento a ausência de Raymundo Faoro. Gostava muito de Gianni, apreciava-lhe o caráter, a fé, o senso correto do jornalismo. Enfim, premiava com sua amizade o cidadão e o profissional. O gaúcho Raymundo saberia valorizar como ninguém este livro de Gianni Carta.