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Número 764,

Cultura

De Balão em Mianmar

por Oliviero Pluviano — publicado 01/09/2013 08h40
Viagem fascinante no céu de Bagan, ideal para acompanhá-la a harpa da Birmânia
Divulgação
mianmar

Além de Santos-Dumont, o Brasil há de se orgulhar de Bartolomeu de Gusmão, inventor do balão no começo do século XVIII

Você já deve ter visto ou ouvido falar de Bagan, a cidade sagrada de Mianmar, a antiga Birmânia, na grande curva do Rio Irauadi, região central do país asiático. Em uma vasta planície de prados verdes e palmeiras, há cerca de 4 mil templos budistas espalhados que datam de até mil anos atrás. Não há povoados nem casas, só pagodes, vegetação e estradas de terra. Entre as antigas stupas (locais de culto budista com uma cúpula em formato de torre) só é possível circular em carroças puxadas por cavalos magérrimos.

Uma maneira fantástica para conhecer toda a Bagan é do alto, dentro da cesta de vime de um antigo meio de transporte, lento e extremamente silencioso: o balão. Em velhos micro-ônibus ingleses da Segunda Guerra Mundial, todos vermelhos com a escrita “Balloons over Bagan”, você sacoleja nos bancos duros de madeira antes de chegar ao amanhecer no local de partida dos balões, que são de uma empresa birmanesa, mas pilotados por britânicos. Alguns ventiladores enchem os balões de ar, que depois é aquecido pelas chamas de potentes queimadores. Entre as brumas do amanhecer, subimos lentamente ao céu, movidos por uma leve brisa por sobre a paisagem deslumbrante salpicada por milhares de templos, ora pequenos, ora imponentes.

Nem todo mundo sabe que nós, brasileiros, além de termos participado dos primórdios da aviação com Santos-Dumont, geramos o inventor do balão: o padre jesuíta Bartolomeu de Gusmão, nascido em Santos, em 1685, em 8 de agosto de 1709 pôs a voar um balão diante da Corte portuguesa reunida em um gramado de Lisboa.

Que experiência fascinante voar em um balão! São cerca de dez pessoas a bordo, mas ninguém se atreve a dizer uma palavra: esporadicamente só os olhares se cruzam, encantados. O leitmotiv é o ar que acaricia nossos ouvidos, e até uma música suave como o adagetto da 5ª Sinfonia de Mahler seria inadequada: nem sequer pensar em um solo de harpa birmanesa. Mas, quando após uma hora de voo você volta para o chão, escapando por um triz de tocar nas árvores e na vegetação espinhosa, então sim, todos festejam ruidosamente com o champagne prometido pela organização (que na realidade é apenas prosecco). Seria bem-vinda uma música tirada do Mahagita, a tradição clássica das músicas birmanesas para a corte real. Trata-se de um conjunto de melodias muito estranhas e em grande parte incompreensíveis, transmitidas sem um sistema de notação musical, e geralmente entoadas por um único cantor ao toque de um saung, a pequena harpa-símbolo de Mianmar, com 16 cordas esticadas sobre uma vara encurvada e uma caixa de ressonância horizontal, a lembrar a forma de um navio. Fato interessante: não é a harpa que acompanha a voz, de fato, dá-se quase o contrário.

Ouça no YouTube o maior virtuoso de saung, Inle Myint Maung, que morreu em 2001, e a cantora Daw Yi Yi Thant. Mas não perca também o solo de harpa birmanesa por ocasião da entrega em 2012, em Oslo, do Prêmio Nobel da Paz à rainha da oposição à ditadura militar de Mianmar, Aung San Suu Kyi. Aquela que foi uma das prisioneiras políticas mais famosas do mundo ganhou o prêmio em 1991, mas ela só conseguiu retirá-lo 21 anos mais tarde, por estar impedida de sair de seu país. No entanto, a melancólica música da harpa birmanesa sempre foi sua inseparável companheira

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