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Número 763,

Internacional

Egito

Ditador, de fato

por Gianni Carta publicado 24/08/2013 11h01, última modificação 24/08/2013 11h36
Os militares assumem o poder, muitos empresários entendem que importante é crescer sem se incomodar com os massacres. Por Gianni Carta
AFP
Egito

O chefe da polícia agora chama de terroristas os islamitas, mas El-Sisi condena até o Prêmio Nobel El Baradei

Com seus óculos Ray-Ban, o general Abdul Fattah el-Sisi, 58 anos, encarna e age como o ditador clássico. Deposto o ex-presidente Mohamed Morsi no início de julho, El-Sisi colocou o ex-presidente e centenas de ministros e simpatizantes de sua agremiação, a Irmandade Muçulmana, sob a custódia das Forças Armadas. Fez mais: suspendeu a Constituição e nomeou um presidente interino, Adly Mansour, o atual presidente da Suprema Corte de Justiça.

Inconformados com a deposição de Morsi, o primeiro presidente civil e islamita eleito pelo sufrágio universal em junho de 2012, simpatizantes do deposto começaram a se manifestar.  No dia 14 de agosto, El-Sisi deu sinal verde para a intervenção da polícia, apoiada pelo Exército. Carnificina. Centenas perderam a vida, milhares foram feridos. A partir de então vigora o estado de emergência e o toque de recolher entre 7 da noite e 6 da manhã.

O golpe de Estado, que Washington prefere não chamar de golpe porque com isso teria de anular os 1,3 bilhão de dólares anuais proporcionados ao Exército egípcio, gera a primeira ditadura militar da Primavera Árabe. Esta é a verdade factual, diria Hannah Arendt. No seu último discurso pela televisão, pronunciado no domingo 18, El-Sisi, presidente do Conselho Supremo das Forças Armadas e ministro da Defesa, disse: “Eu e o Exército somos guardiões da vontade do povo”. Garante ele, da trincheira dos seus óculos escuros, que o país mais populoso do mundo árabe (85 milhões de habitantes) atravessa uma transição rumo à democracia. Dá para acreditar?

Os protestos na Praça Tahrir contra Morsi começaram em novembro de 2012, quando o então presidente fez emendas à Constituição, consideradas passos dados no rumo da islamização pelos seus detratores, e promulgou um decreto para atribuir-se direitos totais. A mídia sofria censura, como agora sob El-Sisi. Mesmo após o massacre de 14 de agosto, o general conta com o apoio, entre outros, do movimento dos Tamarrod (rebelião). Foi este o responsável pelo início dos protestos e, formado por pretensos liberais, divulgou um comunicado: “A repressão é o preço a pagar para libertar o Egito da organização fascista dos Irmãos Muçulmanos”.  Por sua vez, numerosos empresários também não parecem preocupados com a guerra civil que de fato grassa. Para eles, fundamental é fazer o país crescer, visto que Morsi não foi eficaz com sua política econômica.

Há razões para temer que a ditadura tenha chegado para ficar. Na quinta-feira 22, Hosni Mubarak, ditador por três décadas deposto na revolução de fevereiro de 2011, foi solto por ter ficado dois anos atrás das grades, o limite segundo o direito egípcio. Ele cumprirá sentença de prisão domiciliar. O julgamento recomeça no domingo 25, mas em um caso de corrupção, o de ter aceito 1,5 milhão de euros, ele foi absolvido, porque devolveu a soma.  Terá de enfrentar, no entanto, outras acusações, como aquela por cumplicidade na morte de 900 pessoas na revolução que o derrubou. Não se exclua, contudo, que estejamos no começo da reabilitação de Mubarak.

Na mesma prisão de Tora, ao sul do Cairo, de onde saiu Mubarak, estaria detido Morsi e, ironia das ironias, o ex-presidente islâmico é condenado, entre outros, como responsável pelas baixas de jovens manifestantes diante do palácio presidencial em dezembro de 2012. Igualmente kafkiano é o fato de Morsi estar sendo condenado por ter tentado fugir de um cárcere sob a ditadura de Mubarak. Aquele, sublinhe-se, não era um Estado de Direito. Outro islamita no lugar de Mubarak no cativeiro, este detido na terça-feira 20, é o guia supremo da Irmandade Muçulmana, Mohammed Badie. Seu filho de 38 anos foi morto em um massacre da polícia na semana passada. Badie era conselheiro de Morsi e sua prisão foi uma tentativa de decapitar a Irmandade Muçulmana.

Em entrevista ao Le Monde, o chefe da polícia egípcia substitui o termo “islamita” por “terrorista”. Ele emenda: “Há apenas 3 milhões de filiados da Irmandade Muçulmana. Precisamos de uns seis meses para liquidá-los ou colocá-los atrás das grades. Não será um problema, fizemos isso nos anos 90”. No domingo 18, 36 detidos islamitas morreram asfixiados com bombas de gás lacrimogêneo. Continuam a morrer em confrontos com a polícia país afora. Mas, no regime de El-Sisi, não são traidores somente os simpatizantes da Irmandade Muçulmana. O ex-vice-presidente e Nobel da Paz (2005) Mohammed ElBaradei será processado em 19 de setembro por ter renunciado durante o massacre de 14 de agosto. Difícil entender é como ElBaradei depositou confiança nas promessas de El-Sisi.

Foi o próprio Morsi quem nomeou El-Sisi em agosto de 2012 para ministro da Defesa. Mas ainda era difícil detectar as zonas de sombra que cobrem a vida do general nascido no Cairo em novembro de 1954, muçulmano praticante. Parecia próximo da Irmandade Muçulmana. Filiado era seu irmão Khaled Lutfi el-Sisi, morto por causa de suas inclinações políticas.  Por essas e outras, havia oficiais que encaravam El-Sisi como um Irmão Muçulmano camuflado. Por seu lado, a Irmandade Muçulmana acreditou que começava uma nova era para selar a parceria entre islamitas e militares. Havia sintomas a respeito. El-Sisi aceitou, por exemplo, o treinamento de islamitas na Academia Militar egípcia, até então proibido.

A mulher de El-Sisi, mãe de quatro filhos, enverga o niqab, véu que esconde o rosto inteiro. Embora carismático e sorridente, o general evita as câmeras.  No entanto, é um exímio orador, especialmente quando faz discursos sentimentais e, consta, arranca lágrimas até de oficiais. Como vários militares e não militares egípcios, ele é um grande admirador do coronel Gamal Abdel Nasser, que em 1952, no comando dos “oficiais livres”, depôs a monarquia e estabeleceu a primeira república do Egito moderno. De fato, numerosos simpatizantes de El-Sisi o comparam com Nasser. Mas se enganam, a começar pelo fato de que Nasser derrubou uma monarquia, em vez de um regime eleito democraticamente.

De todo modo, El-Sisi é, antes de tudo, fiel à sua farda. Colocá-lo no posto de ministro da Defesa seria algo como Salvador Allende dar a Augusto Pinochet o cargo de comandante-chefe do Exército chileno para restabelecer a ordem, escreveu, não sem razão, um editorialista do semanário satírico francês Le Canard Enchainé. Recebeu diploma em Ciências Militares na Academia Militar egípcia em 1977. Em 1992, fez estudos em uma academia militar britânica e, finalmente, como numerosos fardados, concluiu um mestrado no US Army College, na Pensilvânia. Além de sólidos elos com militares norte-americanos, ele tem excelentes relações com a Arábia Saudita, onde serviu como attaché militar sob Mubarak.

Enquanto a Casa Branca anuncia um debate para decidir se El-Sisi é responsável por um golpe de Estado ou apenas escutou o povo, os 28 países da União Europeia, que entregam anualmente 5 bilhões de euros ao Egito, suspenderam as licenças para exportação de armas e de outros produtos bélicos. Vale acentuar que, somadas as contribuições ocidentais, não chegam perto dos 12 bilhões de dólares dados pela Arábia Saudita e os Emirados Árabes para reforçar a repressão contra a Irmandade Muçulmana. Os israelenses aplaudem a generosidade dos países do Golfo e lamentam o fato de Washington lançar debates desnecessários.