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Número 763,

Sociedade

Cariocas

Avenida Atlântica, mar e história

por Carlos Leonam — publicado 26/08/2013 08h24, última modificação 26/08/2013 09h43
Duas casas da via serão demolidas, sufocadas pelo mercado imobiliário. Mas não esqueçamos o passado do endereço que abrigou o Clube dos Cafajestes
18 do Forte

Rebeldia. Pelo asfalto da Avenida seguiram, em 1922, os tenentes amotinados contra Arthur Bernardes, os 18 do Forte

Copacabana, a Princesinha do Mar, Avenida Atlântica, o seu colar. De suas casas e mansões, destacando-se o Copacabana Palace (erguido por Octávio Guinle nos moldes dos similares da Riviera Francesa) vieram os prédios, num endereço da elite só hoje sobrepujado pelos filhos da especulação imobiliária da orla de Ipanema e Leblon. Há pouco, nostálgico, o cronista Artur Xexéo rememorou as construções que também foram desaparecendo, dando lugar a edifícios residenciais e a novos hotéis, todos também fruto da especulação (que, diga-se de passagem, tornou Copacabana um imenso pombal).

É que vão ser demolidas as duas últimas casas da Avenida Atlântica – uma no Posto 4, sufocada por dois grandes edifícios; outra no Posto 6, do Consulado da Áustria. Por isso, Xexéo, atento observador de seu bairro, recordou outras residências que contribuíram para o deleite que era viver na Avenida Atlântica. E, sejamos honestos, ainda é, principalmente nos edifícios mais antigos. Pegando o gancho, quero lembrar alguns personagens que tornaram a Avenida Atlântica inesquecível. Ali no Leme morou Ary Barroso, a par de grande compositor, um locutor de futebol hilariante por ser mal-humorado. Ary ainda está lá, na entrada da Fiorentina, que, nos anos 1960, era o ponto de encontro do show business e da imprensa do Rio.

Mais adiante, no Posto 3, no Alvear, reuniam-se os rapazes bem-nascidos do Clube dos Cafajestes – Carlinhos Niemeyer, Mariozinho de Oliveira, Mario Saladini, Carlos Peixoto, Paulinho Soledade... Eram o terror das mamães, ao arrebanhar suas filhinhas para os memoráveis Bailes do Popeye e o Mamãe, Eles São de Família, no Clube dos Marimbás, oásis no final do Posto 6. Lá fica o Forte de Copacabana, de onde partiram os jovens tenentes rebeldes, os 18 do Forte, que saíram pela Avenida, de peito aberto contra Arthur Bernardes, em 1922, e mereceram um monumento no local onde um deles foi morto.

Por toda a orla pontuavam as balizas do futebol de areia, território de times famosos como o Lá Vai Bola, Radar, Racing, Copaleme, em que pontificaram craques como Júnior. Onde, aliás, Arnaldo Cezar Coelho deu seus primeiros trilados como árbitro e saía nadando ao apito final para escapar da ira das torcidas... Mas ídolo mesmo da praia era Heleno de Freitas, famoso craque do futebol carioca (e brasileiro) dos anos 1940 e 1950. Ele desembarcava de seu conversível e ia sentar-se perto da água, passando por uma plateia embasbacada de garotas casadoiras e garotos que batiam linha de passe.

No Posto 4, estava o palacete de Assis Chateaubriand, que gostava de mergulhar em frente. Ficou famoso o dia em que Chatô quase morreu afogado, foi salvo por uma jovem e saiu furioso, dizendo cobras e lagartos. Fico devendo muito mais. Mas não posso esquecer Ibrahim Sued, o Turco. Ele fora proibido de frequentar a piscina do Copa, quando era um zé-mané, e se vingou, anos depois, dando a maior boca-livre da história do hotel ao festejar 30 anos como colunista social. Coisas da vida