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Número 762,

Internacional

Egito

Primavera não, pleno inverno

por Gianni Carta publicado 17/08/2013 10h22, última modificação 17/08/2013 11h12
Do golpe de Estado que derrubou Morsi brota o inevitável, o contrário da democracia. Por Gianni Carta
AFP
Egito

638 civis e 49 policiais mortos: são os números da tragédia que ensanguentou as praças do Cairo

Nos sangrentos choques que abalaram o Egito na quarta-feira 14, segundo números oficiais 638 civis e 49 policiais morreram. Somente na mesquita incendiada Rabaa Al-Adawiya jazem 250 corpos à espera do enterro. À beira de uma guerra civil, o Egito tornou-se o primeiro país da chamada Primavera Árabe a produzir o oposto da almejada democracia: uma ditadura militar. Em estado de emergência por pelo menos um mês, toque de recolher entre 7 da noite e 6 da manhã, as Forças Armadas comandam novamente o país como o fazia o déspota Hosni Mubarak, deposto pelos militares com o apoio do povo após três décadas no poder, em fevereiro de 2011. A atual carnificina, e os subsequentes decretos a controlar a vida dos egípcios, teve início na quarta-feira 14 quando a polícia, apoiada pelo Exército, recebeu o sinal verde do novo líder do país, o general Abdul Fattah el-Sisi, para evacuar duas praças no Cairo.

Ali se encontravam, em sua maior parte, simpatizantes da Irmandade Muçulmana, a agremiação islamita do ex-presidente Mohamed Morsi, deposto em 3 de julho pela Junta Militar de El-Sisi, então ministro da Defesa. Naquela data, ao som de fogos de artifício, buzinas e gritos dos manifestantes aglomerados na Praça Tahrir, Arnous, diretora-executiva da Bokranews, uma estação online de notícias, resumia o motivo do golpe a CartaCapital: “A economia ia de mal a pior, e a Constituição adotada sob o governo Morsi tinha como objetivo islamizar o Egito”.

Morsi, de fato, revelou-se um fracasso no plano econômico. Uma em cada cinco pessoas vive com 2 dólares diários. A inflação, de 8,7% no ano passado, pode chegar a 13% neste ano. A taxa de desemprego é de 18% e de 46,6% para os jovens entre 20 e 24 anos. O turismo, que representava mais de 11% do PIB, sofreu uma queda de 70%, e o déficit do balanço de pagamentos é de 11,3 bilhões de dólares, enquanto a divida externa beira 40 bilhões de dólares. Ademais, os protestos na Praça Tahrir e país afora ocorreram a partir do fim de novembro, quando Morsi promulgou um decreto pelo qual se conferia direitos plenos. “Derrubamos um ditador laico e elegemos no posto um déspota islamita da Irmandade Muçulmana”, resumia Arnous.

Egbert Harmsen, especialista em Oriente Médio e Norte da África da Universidade de Leidendisse há pouco tempo a CartaCapital: “Morsi alegava ter optado por uma ditadura para salvar a revolução de 2011”. E ditaduras, prossegue o acadêmico, “sempre se iniciam com a suposta necessidade de medidas de emergência”. Foi o caso do Chile, quando Augusto Pinochet deu um golpe. Harmsen sublinhou que não estava a comparar Pinochet com Morsi. Mesmo porque os ditadores parecem ter mudado de nome. À época, El-Sisi era o herói. Ou quase.

Hoje, a desolação de quem se iludia alimenta a tragédia. Quem nutriu esperanças, como Arnous, arrepende-se. Mohamed ElBaradei, ex-diplomata das Nações Unidas e Nobel da Paz em 2005, pediu demissão como vice-presidente do regime de El-Sisi. “Não posso ser responsável por uma gota de sangue diante de Deus e, em seguida, da minha consciência, especialmente com a minha fé de que poderíamos ter evitado isso.” Como pode um Prêmio Nobel apoiar um regime militar que durante 16 meses, entre fevereiro de 2011, após a queda de Mubarak, e junho de 2012, quando Morsi foi eleito, tratou os manifestantes com inaudita truculência? O Exército permanece a instituição mais poderosa do país desde a queda do Império Turco-Otomano, no final da Primeira Guerra Mundial.
Assim como manifestantes como Arnous, ElBaradei acreditava em um governo de união nacional. El-Sisi, ou pelo menos assim parecia imaginar ElBaradei, negociaria com todas as legendas, inclusive com a Irmandade Muçulmana. Esforços seriam despendidos para uma reconciliação. Deu-se o contrário. Desde o início, El-Sisi marginalizou qualquer conversa com filiados da Irmandade Muçulmana. O que parece um cenário esperado pelo simples fato de Morsi e centenas de seus simpatizantes estarem presos desde o golpe de 3 de julho. Seria tão ingênuo assim ElBaradei, ou o cargo de vice-presidente lhe massageou o ego? E por que a chamada comunidade internacional o preza tanto?

A quarta foi um banho de sangue. As costumeiras nuvens brancas de gás lacrimogêneo tornavam-se mais turvas ao se mesclar com a fumaça negra de fogueiras de pneus. Tanques de guerra derrubaram as barricadas como castelos de areia. As balas não foram de borracha, disparadas à altura do ser humano. Do alto dos edifícios, snipers atiraram nos rebeldes na Praça Al-Nahda, nas proximidades da Universidade do Cairo, bem como na Rabaa Al-Adawiya, a leste da capital. Constava haver rebeldes armados, visto que rifles automáticos e metralhadoras, entre outros, oriundos da Líbia, são facilmente adquiridos no mercado negro.

Centenas de pessoas, e milhares segundo a oposição, perderam a vida. Ao lado de feridos, havia pilhas de cadáveres nos hospitais. Inclusive a filha de 17 anos do líder da Irmandade Muçulmana, Mohammed El-Beltagy, agora como numerosos colegas atrás das grades. Outro mártir. Também não sobreviveram na quarta dois jornalistas, a jovem Habiba Ahmed Abd Elaziz do diário Xpress dos Emirados Árabes Unidos, e o cinegrafista britânico Mick Deane da TV Sky News, mortes que tiveram um impacto na opinião global e colocaram, ao contrário das atrocidades cometidas por precedentes ex-ditadores árabes, o regime ditatorial de El-Sisi sob os holofotes. Isso sem contar os milhares de feridos.

Apesar das baixas, os simpatizantes de Morsi, detido com centenas de integrantes de seu governo e filiados de sua agremiação islamita desde o golpe de 3 de julho, agora querem lutar até o fim porque perderam, como foi o caso do líder El-Beltagy, filhos, familiares e amigos. Ademais, jamais aceitaram o fato de um presidente eleito em junho de 2012, o primeiro civil e islamita desde 1952, quando os militares do coronel Gamal Abdel Nasser e seus “oficiais livres” depuseram a monarquia e estabeleceram a primeira república do Egito moderno. Eles jamais confiaram em El-Sisi. Nomeado ministro da Defesa por Morsi por ser muçulmano praticante. Mais: sua mulher enverga o niqab, o véu que esconde o rosto inteiro.  No entanto, El-Sisi é mais fiel à sua farda e, como numerosos soldados egípcios, fez especialização em uma escola militar norte-americana.

Na quinta-feira 15, a Irmandade Muçulmana, que havia perdido a Praça Al-Nahda, organizava nova manifestação na Praça Rabaa. A violência militar não arrefecia, mesmo porque o toque de recolher dava a soldados e policiais plena liberdade de perseguir os rebeldes. Segundo Zvi Bar’ei, especialista militar do diário israelense Haaretz, no Egito deflagra-se uma guerrilha urbana. Se a chamada comunidade internacional não intervier, e este é o cenário mais provável, os militares estarão, argumenta com razão Zvi Bar’ei, em busca do controle do país. Nesse contexto, é difícil, portanto, cogitar as prometidas eleições legislativas e presidenciais para o próximo ano. Ademais, a Constituição está suspensa.

Ainda assim, os simpatizantes de Morsi “vão continuar sua mobilização para restituir o presidente deposto Morsi ao poder”, confirma ao diário francês Le Parisien Hasni Abidi, diretor do Centro de Estudos e Pesquisa sobre o Mundo Árabe (Cermam). A base do movimento, prossegue Abidi, “se mostrou mais radical que os dirigentes do partido”. Assim, esses militantes islamitas voltam a viver na clandestinidade, como na época de Mubarak. Donde o perigo de um acréscimo de jihadistas, inclusive no Sinai, onde aliados aos presentes grupos próximos à Al-Qaeda podem piorar o quadro. E, como já mencionado, uma guerra civil no país mais populoso do mundo árabe, com 85 milhões e habitantes, é preocupante e pode se tornar tão complexa quanto aquela na Síria.

Fundamental, diz Youssef el-Chazli, cientista político especializado em Oriente Médio e Norte da África da Universidade de Lausanne, “é não encarar o conflito no Egito como aquele entre islamistas e laicos”. É o erro que comete a maior parte a mídia. Entre os oposicionistas atuais há, por exemplo, salafistas (leia islamitas radicais) que criticam Morsi, como o fazem outros radicais em países como Tunísia e Turquia. São contra os líderes islamitas no poder a não adotar a Sharia (código de leis do Islã) na Constituição. Por outro lado, a solução militar não agrada sequer os moderados laicos como ElBaradei. Ao que tudo indica, El-Chazli acerta na sua análise. Convém levar em conta, no entanto, que a situação no Egito também se torna, a cada dia, mais influenciada pelas divergências entre as seitas.

Enquanto isso, é ambígua a posição de Washington. Os EUA não reconhecem, apesar de vagos discursos de Barack Obama, que houve um golpe de Estado. Se o admitirem, teriam de parar de enviar 1,3 bilhão de dólares anuais ao Exército egípcio, como fazem desde 1979, quando do pacto de paz assinado entre o Cairo e Tel Aviv. E o Exército egípcio garantia estabilidade na região.

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