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Número 762,

Cultura

Cinema

Apenas dignidade

por Orlando Margarido — publicado 18/08/2013 11h00
Flores raras evidencia a concepção artística tradicional da família Barreto no cinema e se empenha no antigo desejo da matriarca da família em filmar o amor de Lota Soares e Elizabeth Bishop
Flores raras

Glória Pieres e Miranda Otto, comedidas

Flores Raras
Bruno Barreto

Uma marca de qualidade poderia ser atrelada à família Barreto. Não a qualidade no resultado de um filme, seja ele assinado por Bruno, seja por Fabio Barreto, o irmão que não mais dirige depois de um acidente, ou apenas produzido pelo patriarca Luiz Carlos e sua mulher Lucy. A marca se liga mais à concepção artística tradicional, a uma atenção aos detalhes e ao pensamento voltado a um gosto permeável ao grande público. Em poucas produções do clã essa postura fica tão visível como em Flores Raras, estreia da sexta 16. Dirigido por Bruno, o filme é um empenho familiar a partir do antigo desejo de sua mãe em filmar o amor da urbanista carioca Lota Macedo Soares e da poeta americana Elizabeth Bishop entre os anos 1950 e 1960.

Em princípio, mostrar uma relação homossexual entre essas duas mulheres sugeriria uma ousadia na concepção de cinema dos Barreto. De certa forma o é, ao se buscar tratar com afeto e respeito a paixão de ambas, sem alardeá-la como afirmação num período ainda conservador. Firma-se, sobretudo, no retrato intimista das questões que delineiam ambas, Lota (Glória Pires) em seu estilo autoritário e pouco sutil, Bishop (Miranda Otto) na sensibilidade a uma cultura e parceira que lhe surgem por vezes desafiadoras. Na procura da dose certa, as interpretações oscilam, especialmente aquela de Glória. E se falta equilíbrio sobram contenção e recato onde se esperaria maior fulgor. Nesse sentido, trata-se de uma regra de comedimento mais preocupada com dignidade do que com arrojo.

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