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Número 761,

Saúde

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O mal das montanhas

por Drauzio Varella publicado 16/08/2013 09h56, última modificação 16/08/2013 10h03
Quem sobe grandes altitudes rapidamente pode passar mal e até correr risco de morte. Por Drauzio Varella
AFP
Montanha

Todos. Até alpinistas experientes podem sofrer do mal

Pessoas não aclimatadas que se deslocam rapidamente para altitudes elevadas correm o risco de apresentar sintomatologia debilitante e potencialmente fatal, caracterizada por dor de cabeça, náuseas, tonturas, perda de apetite, mal-estar e distúrbios do sono. De 10% a 25% dos que sobem a 2.550 metros desenvolvem sintomas leves a moderados num período de 6 a 12 horas. Esse quadro instala-se em 50% a 85% dos que atingem entre 4,5 mil a 5 mil metros. Correm mais risco de padecer do mal os que já apresentaram um ou mais episódios, as mulheres, quem tem menos de 46 anos e os que sofrem de enxaqueca. O esforço físico agrava o quadro. Boa forma física não exerce efeito protetor.

Tratados adequadamente, os sintomas desaparecem em um ou dois dias. Nos casos mais graves, porém, pode surgir um edema cerebral, o que provoca falta de coordenação motora, dificuldade para andar, febre e comprometimento da consciência. Sem tratamento, a pessoa entra em coma e vai a óbito em 24 horas. A presença de cefaleia e vômitos sugere que o quadro deixou de ser um simples mal das montanhas. A prevalência de edema cerebral, entre aqueles que sobem de 4 mil a 5 mil metros, é de 0,5% a 1%.

Em casos graves, pode haver também edema pulmonar, condição caracterizada por falta de ar, tosse, exaustão, chiado no peito, cianose e presença de sangue no escarro. Acima de 3 mil metros, o edema pulmonar instala-se em dois ou mais dias, e se agrava quanto maior a altitude e a velocidade da subida. A prevalência é de 0,2% quando a altura de 4 mil metros é atingida em quatro dias e de 2% no caso dos que sobem 5 mil metros em sete dias. Se essa altitude for atingida em um ou dois dias, 6% a 15% dos alpinistas terão edema pulmonar.

Tal risco é mais alto em quem já sofreu do mal em outras ocasiões. Nesses casos, pode chegar a 60% entre os que escalam 4,5 mil metros em dois dias. Embora atletas tenham mais chance de chegar ao cume das montanhas, o preparo físico não guarda relação clara com a suscetibilidade para o mal. Para escaladas acima de 3 mil metros, os manuais recomendam subir no máximo 500 metros por dia, com um dia de descanso a cada três ou quatro dias.

A aclimatação em altitudes de 2 mil e 3 mil metros por uma semana, antes de escalar mais de 4,5 mil metros, reduz o risco do mal. A administração ácido acetilsalicílico ou Ibuprofeno diminui a incidência de cefaleia. A primeira dose deve ser tomada uma hora antes de iniciar a subida. Quando o risco de sintomas é mais elevado, é indicado o uso de acetazolamida duas vezes ao dia, a partir da véspera da escalada. A droga deve ser descontinuada na descida.

Uma alternativa é a dexametasona, duas ou três vezes ao dia. O risco de edema pulmonar pode ser diminuído com o uso de nifedipina – droga usada no tratamento da hipertensão arterial – ou de tadalafila – usada na disfunção erétil.