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Número 761,

Internacional

Zimbábue

Mugabe, ou de como o poder corrompe

por Gianni Carta publicado 10/08/2013 10h13, última modificação 12/08/2013 09h29
Eleito pela enésima vez, graças ao "golpe das urnas", o déspota começou como herói e acabou mostrando seu rosto de vilão. Por Gianni Carta
Jekesai Njikizana / AFP
Mugabe

Mugabe assumiu como primeiro-ministro do Zimbábue em 1980

33 anos no poder, Robert Mugabe foi reeleito presidente com 61% dos votos, no sábado 3. Sua legenda, a União Nacional Africana do Zimbábue – Frente Patriótica (Zanu-PF), obteve maioria esmagadora de dois terços das cadeiras no Parlamento. Aos 89 anos, o famoso prognóstico do ditador poderá se concretizar. “Só Deus me removerá desse cargo”, disse ele no pleito anterior, em 2008, quando ficou em segundo lugar no primeiro turno. Naquele ano, o vencedor oposicionista Morgan Tsvangirai, líder do Movimento para a Mudança Democrática (MDC), não disputou o segundo turno visto que as milícias de Mugabe mataram 200 simpatizantes do MDC. Após meses de negociações, em 2009 o ex-sindicalista Tsvangirai aceitou ser premier, enquanto Mugabe continuaria no trono presidencial. No último pleito no dia 3, Tsvangirai, de 61 anos, amealhou apenas 34% dos votos, e sua agremiação um mero terço no Parlamento.

Tsvangirai fala em “golpe nas urnas” e incita o povo a revidar com uma insurreição popular. Embora os líderes da chamada comunidade internacional condenem a solução violenta, não escasseia quem confirme e condene o chamado “golpe das urnas”. William Hague, o ministro britânico do Exterior denunciou “claras irregularidades” durante a votação. John Kerry, secretário americano de Estado, repetiu o mesmo discurso.

Com ou sem fraude eleitoral (e fraude houve), não haverá um novo escrutínio. Tsvangirai poderia recorrer às cortes, mas os juízes foram nomeados por Mugabe. Mais: o presidente sul-africano Jacob Zuma apressou-se a felicitar Mugabe pela sua vitória. A União Africana fez o mesmo. Pretende-se com isso garantir paz na região. E qualquer sinal de serenidade no Zimbábue é bem-vindo por Hague e Kerry, de atenção voltada para várias outras insurreições. Como sublinha Thierry Vircoulon, pesquisador associado do Institut Français des Relations Internationales (IFRI), Tsvangirai começou a perder durante o governo anterior “quando se deixou-se seduzir e se comprometeu com o Zanu-PF”. Fundador do MDC, em 1999, em um país até então unipartidário, Tsvangirai foi um líder indeciso. “Na verdade há duas oposições”, explica Vircoulon a CartaCapital. Os dias de Tsvangirai como líder partidário parecem contados.

Mugabe não foi sempre um ditador. Destacou-se como líder guerrilheiro contra o regime racista branco de Ian Smith, o líder da Rodésia. Passou uma década na prisão. Ao ser libertado saiu-se vencedor. Em 1979, nas negociações na Lancaster House, em Londres, estabeleceu-se que ele seria o líder da ex-Rodésia, rebatizada Zimbábue-Rodésia, e mais tarde simplesmente Zimbábue. Em 1980 tornou-se premier. Notável foi o fato de Mugabe ter deixado Ian Smith, o homem que o manteve preso por uma década, viver seus últimos anos no Zimbábue. Mugabe buscava uma reconciliação racial. Sua política era transparente. A economia do país era uma das mais pujantes do continente. A receita de exportações de tabaco, algodão, produtos agrícolas, ouro e minerais era reinvestida em diversos programas. Um deles, o de alfabetização, é um dos maiores trunfos de Mugabe. Com uma taxa de alfabetização de 90%, o Zimbábue era, e é, um exemplo para o continente.

O próprio Mugabe, homem de formação marxista, era respeitado pela sua cultura geral. Um embaixador europeu, que prefere não ser citado e teve audiências com Mugabe, diz: “Seu inglês é impecável, seus ternos são feitos sob medida em Londres, e no trato ele é muito cordial”. Durante os encontros, o embaixador conta que Mugabe servia chá e gostava de falar, entre outros, de críquete, esporte inventado pelos britânicos. Articulado, ele recebeu a rainha Elizabeth II, visto que até 2002 o Zimbábue fez parte da Comunidade das Nações. Em 1994, a rainha condecorou Mugabe como Cavaleiro de Honra, mas em 2008 revogou o título.

O humilde guerrilheiro tornou-se um ditador. Impossível perfilar Mugabe sem citar Heidi Holland, nascida na África do Sul, criada no Zimbábue, e autora do livro Dinner With Muagabe: The untold story of a freedom fighter who became a tyrant (Penguin, 280 págs., 2008) Em 1975 a jornalista organizou um jantar secreto em sua casa em Harare. O principal convidado era Robert Mugabe. Em dezembro de 2007, após quase dois anos de tentativas, ela conseguiu entrevistar o líder do Zimbábue por mais de duas horas. O freedom fighter por ela admirado havia se tornado um tirano. O homem humilde que ela admirava em 1975 não tolerava mais críticas. Havia se tornado um paranoico, narcisista, e quanto mais repressivo mais poderoso se sentia.

O que acontecera com aquele homem que lutou contra o racismo, e trouxe saúde e um alto nível de alfabetização para o Zimbábue? Holland estabelece algumas datas para a metamorfose de Mugabe. Em 1985 os brancos não o apoiam em um escrutínio presidencial, prova de que não reconheceram seu programa de reconciliação. Dois anos mais tarde, Tony Blair, recém-eleito, decide cessar a ajuda, inclusive aquela de compensação aos fazendeiros brancos avessos a vender suas terras. Detalhe: 1% dos fazendeiros era dono de 70% das terras agriculturáveis, e esse acordo fazia parte daqueles assinados na Lancaster House, em 1979.

O novo governo de Blair alegava não ter nada a ver com acordos entre colonizadores e colonizados. Representava uma nova era. Mais: Mugabe, segundo o governo de Blair, privilegiava seus aliados políticos e não os sem-terra, o que parece ser correto. Mugabe sentiu-se traído pelo Reino Unido. Em 2000 os eleitores votaram “não” em um referendo sobre uma reforma constitucional. Foi a primeira derrota eleitoral de Mugabe. Mugabe deu sinal verde aos veteranos de guerra para invadir a propriedade dos fazendeiros brancos. Violência. A economia desandou. Hiperinflação. Muitos morreram de fome. Uma epidemia de cólera espalhou-se pelo país. “Não poderia jamais defender Mugabe pela sua violência, mas segundo os acordos assinados de Lancaster House, ele de fato foi traído”, diz o embaixador europeu. “E esses fazendeiros brancos eram um bando de reacionários.”

Segundo Holland, Mugabe é o produto de uma infância complicada. Seu pai carpinteiro abandonou-o quando ele tinha 10 anos. Sua mãe, ultracatólica, instilou-lhe o sentimento de que teria destino grandioso. Mugabe era um menino tímido, estudioso em um seminário de um jesuíta anglo-irlandês. Não tinha amigos, e não tem hoje. Sim, esse poderia ser o perfil para um ditador, segundo qualquer psicólogo. Mas a história é mais complexa. Vircoulon, do IFRI, argumenta em um artigo que “o regime do Zimbábue não se resume à personalidade de Mugabe”, mas afirma em seguida que o ditador é longevo porque criou uma “ditadura durável”. Em miúdos, “militarizou” o poder. O boom do diamante o elegeu. Ele conta com o apoio não somente de Zuma, mas também da China, seu principal parceiro econômico. Passou a perna em Tsvangirai, que como premier achava ser o líder do país. Mugabe é o homem que criou e mantém o sistema “disfuncional” do Zimbábue.

Hiperinflação, lojas vazias. Para combater a inflação, o dólar americano é a divisa principal desde 2009. Mais de 70% da população de 13 milhões de habitantes está desempregada. Mugabe continua a tingir os cabelos e o bigode, nem por isso as injeções de botox fazem desaparecer as rugas. Em todo caso o déspota é disciplinado. Sua segunda mulher, Grace, de 49 anos, diz que ele acorda às 4 da manhã para fazer ginástica.

Há divisões “profundas” no partido de Mugabe, diz Vircoulon. “Não preparam sua sucessão.” Por medo? Mugabe, que perdeu a mãe quando ela tinha 100 anos, deve crer lhe sobraram muitos anos pela frente para cuidar do assunto.

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