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Número 760, Agosto 2013

Saúde

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Por que o rato-toupeira-pelado não tem câncer?

por Rogério Tuma publicado 05/08/2013 09h19, última modificação 05/08/2013 09h48
Um rato esquisito, uma molécula de açúcar e, de repente, uma importante revelação para o combate à mais letal das doenças humanas
Ilustração: Minimorgan
rato-toupeira-pelado

"A beleza vem do interior" dito popular

Ratos são frequentemente utilizados em estudos científicos, por vários motivos: reproduzem-se com muita velocidade, são mamíferos, e pequenos, além de viverem em média apenas quatro anos e terem uma alta incidência de câncer de vários tipos. A maioria dos estudos para drogas que tratam câncer é feita em ratos. Acontece que o continente africano possui uma espécie de rato que habita ambientes subterrâneos, a qual, além de viver em média 30 anos, jamais foi descrito um caso sequer de câncer entre seus espécimes.

Um grupo de cientistas americanos e israelenses acaba de descobrir o segredo desse bichinho – horroroso na forma e no nome – de viver muito e ser imune à doença que mais mata os humanos: um estudo da Universidade de Rochester e da Universidade de Haifa descobriu uma molécula de açúcar chamada Hialurano de Alto Peso Molecular (HMM-HA). Eles descobriram que esse superaçúcar secretado pelas células de vários tecidos impede que outras células se agrupem e formem tumores, e a simples retirada dessa molécula do corpo desses ratos os torna tão suscetíveis a tumores como qualquer outro tipo de rato.

O Hialurano é um açúcar de cadeia longa, um filamento, e é encontrado em articulações humanas e de outros mamíferos, onde funciona como lubrificante. Os ortopedistas os prescrevem com frequência para a melhora dos sintomas das artroses e artrites e também pode ser usado em tratamentos antirrugas, mas o Hialurano dos ratos-toupeira está presente em quantidades muito superiores em relação aos outros animais.

Os pesquisadores descobriram que a enzima que produz o Hialurano, chamada HAS2, nos ratos-toupeira tem uma molécula um pouco diferente, pois existe uma mudança em dois aminoácidos na sua molécula, o que torna sua capacidade de produção muito maior. Outra característica típica é que as células desses ratos têm muito mais afinidade para se ligar ao Hialurano. Outra espécie de rato subterrâneo encontrado em Israel, o rato-toupeira, cego e solitário, também possui alta concentração de Hialurano em seu corpo.

Segundo o doutor Eviatar Nevo, do Instituto de Evolução da Universidade de Haifa, essa produção excessiva de Hialuranos é uma adaptação evolucionária, pois permite que os tecidos tenham a elasticidade necessária para a vida subterrânea, facilitando a movimentação em túneis e tocas.

Essas são as brincadeiras que a Mãe Natureza prega em seus filhos, você pode não ter câncer e ter vida longa, mas precisa ser cego, pelado, uma toupeira e um rato ao mesmo tempo.

Existem poucos estudos com tecidos humanos, mas essa é uma molécula promissora, principalmente para o tratamento de metástases. Estudos mostram que, quando implantamos o código genético da proteína HAS2 em células humanas, elas passam a produzir quantidade bem maior de Hialurano, permitindo uma gama enorme de possibilidades no tratamento e prevenção do câncer entre nós.

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