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Número 760, Agosto 2013

Sociedade

Comportamento

A praga do espelho

por Thomaz Wood Jr. publicado 12/08/2013 08h48, última modificação 12/08/2013 09h27
Muitas empresas cultivam e cultuam profissionais narcisistas, mas a opção pode custar muito caro. Por Thomaz Wood Jr.
Flickr / Shareski
Narcisismo

Segundo estudos, os traços de personalidade narcisista cresceram tanto quanto a obesidade nas últimsa décadas

As manifestações recentes no Brasil trouxeram à tona frustrações e insatisfações. Elas também revelaram comportamentos narcisistas entre as hordas mais jovens que tomaram as ruas, armadas de smartphones, ávidas por registrar seus 15 segundos de fama nas mídias sociais. O fenômeno faz eco à constatação de diversos estudos científicos, de que vivemos sob o império de Narciso.

Bill Davidow, em artigo publicado no website da revista norte-americana The Atlantic, em março de 2013, compilou estudos e declarações de especialistas em torno da magnitude da epidemia. Jean M. Twenge e W. Keith Campbell, autores do livro The Narcissism Epidemic, mencionam uma pesquisa com 37 mil estudantes universitários. Segundo o estudo, os traços de personalidade narcisista cresceram tanto quanto a obesidade nas últimas décadas. Shawn Bergman, professor de Psicologia, também constatou em pesquisas que o nível de narcisismo entre os jovens contemporâneos é mais alto do que nas gerações anteriores.

Pesquisadores da Universidade de Western Illinois, mencionados pelo jornal inglês The Guardian, em artigo também de março de 2013, estudaram comportamentos associados ao narcisismo (como a vaidade, o sentimento de superioridade, o exibicionismo, o senso de merecer respeito e a tendência de manipular e tirar vantagens dos outros) entre 294 estudantes. O estudo revelou correlações positivas entre tais traços e os modos de uso do Facebook.

Um trabalho de autoria de Jacqueline Z. Bergman, James W. Westerman e Joseph P. Daly, comentado nesta coluna há três anos, constatou: os estudantes universitários norte-americanos, especialmente os alunos dos cursos de Administração de Empresas, apresentam níveis de narcisismo próximos daqueles de estrelas de cinema e de músicos populares. Um estudo mais recente, também liderado por Bergman, constatou uma relação positiva entre narcisismo e materialismo: quanto maior o materialismo, menor a ética ambiental.

Os jovens estão se tornando cada vez mais narcisistas e as mídias sociais provêm uma plataforma para suas exibições. Elas se transformaram em vitrines constrangedoras para manifestações narcisistas e comportamentos infantis. E os narcisistas parecem criar um padrão de comportamento para os demais.

No centro da epidemia, a fotografia parece ter sido reinventada. Antes, uma foto podia ter a banalidade simpática de uma cena familiar, tocante por seu significado pessoal, ou a aura de um registro artístico, emocionante pelo objeto registrado ou por sua composição. O fotógrafo era o agente invisível, a equilibrar com maior ou menor talento sua imaginação e suas intenções com o mundo de movimentos, luzes e sombras à sua frente. Este escriba só tomou contato com a aparência física dos mestres Henri Cartier-Bresson e Robert Capa anos depois de começar a admirar suas imagens. Na era das mídias sociais, a fotografia parece ter se transformado em qualquer composição que inclua o fotógrafo: eu e meu gato, eu e meu risoto, eu no Taiti, eu na maratona... eu na Paulista! É o estranho mundo da iPhoto.

Naturalmente, não se pode culpar exclusivamente as mídias sociais e os smartphones pela praga do espelho. A tecnologia garante o meio e induz a mensagem, mas a epidemia se deve também a questões relacionadas à educação e ao ambiente sociocultural. A permissividade dos pais e a satisfação imediata dos mais insípidos desejos das crianças a alimentam. Simultaneamente, o pseudouniverso das celebridades faz o narcisismo parecer normal, transformando-o em modelo de conduta.

Quais as consequências? A autoconfiança e um grau “administrado” de narcisismo podem contribuir para aumentar a nossa iniciativa e autonomia, ajudar a superar as frustrações do dia a dia. Além de certo ponto, contudo, o narcisismo pode se tornar nocivo. Conforme observou o pesquisador Roy Lubit há mais de dez anos, indivíduos que sofrem de “narcisismo destrutivo” dão importância excessiva a si mesmos, são arrogantes e se orientam exageradamente para a conquista de poder e riqueza.

Muitas empresas cultivam e cultuam tais tipos. Elas podem, porém, pagar um alto preço por isso. Narcisistas podem ser caprichosos, egoístas, instáveis, tóxicos e chatos, muito chatos.

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