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Número 758, Julho 2013

Sociedade

Refô

O Guardiola que bate um bolão

por Marcio Alemão publicado 04/08/2013 10h21
Mesmo em tenra idade, esse branco vinificado em tanques de cimento já desfruta de fama e glória
Sicília

“Na Sicília, ao redor do vulcão Etna, Andrea Franchetti cultiva os vinhedos de Passopisciaro...”

“Na Sicília, ao redor do vulcão Etna, Andrea Franchetti cultiva os vinhedos de Passopisciaro...” Copiei letra a letra o início da página do catálogo da importadora Mistral dedicada ao produtor citado. Ganhei uma garrafa do branco. Deixei claro por aqui que sou fã dos brancos e por isso sofro mais que os “tinteiros” (neologismo criado pelo cronista gastronômico Marcio Alemão que significa apreciadores de vinho tinto).

Ganhei uma garrafa de um vinho que, apesar da pouca idade, desfruta de fama e glória. Já ouviu falar em vinho vinificado em tanques de cimento? Agora você pode dizer que sim. É nesse ambiente que o Guardiola, que não é parente nem distante do técnico do Bayern, é vinificado. E as uvas chardonnay crescem em solos, obviamente, vulcânicos.

O prato que preparei para acompanhá-lo foi um arroz bomba, - o arroz espanhol especial para paellas - com camarões, lulas e cogumelos shiitake frescos. Um clássico “maremonti”. Entrei, primeiro, com o clássico refogado de alho, cebola e azeite. O arroz fiz à parte, só na água.

Abri o Guardiola antes de começar a finalizar o prato. Fico sempre impressionado com essa relação que tenho com os vinhos e que lembra  demais a relação com as pessoas.

O primeiro gole foi estranho. Olhei bem para ele e o achei meio invocado, nervosinho. Nessas horas é fundamental considerar que estava diante de um jovem chardonnay de quatro anos. Cá entre nós, poderia ter esperado uns oito anos.

Nervoso, mas domável, percebi assim que coloquei na boca uma boa colherada de arroz quentinho. Faltava a criação desse ambiente aconchegante em minha boca. Mais um gole e senti que a possibilidade de travarmos uma boa conversa não estava distante.

Brancos de classe, jovens, são parecidos com jovens cavalos. A foto já está feita, você percebe de cara a exuberância, a potência, a classe, mas, se não tiver paciência, o melhor é escolher um passeio de charrete, um espumante meio seco.

O Guardiola está muito mais perto de um chablis. Sua mineralidade é quase maior que sua acidez. Acontece às vezes com picles: uma fissura pela acidez. Tive esse momento com o xará do técnico, mas decidi sair fora, terminar o arroz.

E, realmente, na mesa, uma hora depois, nossa conversa estava calma, harmônica. Com o arroz e os seres do mar tudo fez mais sentido.  Ainda assim estou certo de que vai mostrar sua classe em cinco ou até dez anos.

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