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Número 758, Julho 2013

Sociedade

História

Memórias do cárcere

por Nirlando Beirão publicado 22/07/2013 08h58, última modificação 22/07/2013 09h39
Do presídio de Mandela à Ilha Grande de Graciliano, um tour pelos presídios para iluminar o passado
Robben Island

A prisão de Robben Island, mantida pelo regime racista da África do Sul

O presídio de Robben Island (Ilha das Focas, em afrikaner) virou um santuário da tolerância depois de ter sido, na África do Sul, o retrato acabado do apartheid. Nelson Mandela ali ficou encarcerado por 18 de seus 27 anos de pena. Recentemente, Barack Obama, xerife de Guantánamo, visitou o local – agora Patrimônio Mundial da Unesco. Cultivada na literatura, a memória traumática dos cárceres nem sempre é preservada, como  aconteceu com o Carandiru, demolido na vã tentativa de exorcizar o massacre de 111 detentos em 1992. Outros ficaram de pé, mundo afora, transformados em museus e abertos a visitas:

Robben Island
Mantido pelo regime racista dos brancos à prudente distância de 6,9 quilômetros da Cidade do Cabo, era, desde o século XVII, sob domínio holandês, local de banimento. Em 1997, virou museu. Além de Mandela, o atual presidente da África do Sul, Jacob Zuma, cumpriu dez anos em Robben Island, assim como Kgalema Motlanthe, interino entre 2008 e 2009. O ferry faz o percurso de pouco mais de duas horas quatro vezes ao dia, a 230 rands (56 reais, adultos) e 120 rands (30 reais, crianças), preço que inclui o tour de três horas pela ilha ciceroneado por um ex-preso político.

Fortaleza Pedro e Paulo
É a cidadela a partir da qual o imperador Pedro, o Grande, fundou São Petersburgo, em 1703, diante do Rio Neva, com projeto do italiano Domenico Trezzini. Depois de 1720, passou a abrigar, com fama de Bastilha russa, prisioneiros políticos. Privaram de sua rude hospitalidade o escritor Fiódor Dostoievski, o anarquista Mikhail Bakunin e o revolucionário Leon Trotski. É museu desde 1924 – o mais visitado depois do Hermitage. Aberto das 10 às 18 horas todos os dias, menos às quartas-feiras. Ingresso a 300 rublos (23 reais).

Château d’If
Fica na ilha de mesmo nome, no Mediterrâneo, a 1,5 quilômetro e 20 minutos de barco de Marselha, no sul da França. Já nasceu como presídio, em 1524, por ordem do rei Francisco I. O revolucionário Mirabeau passou por lá, mas o seu mais ilustre inquilino nunca existiu, a não ser na ficção de Alexandre Dumas: Edmond Dantès, o Conde de Monte Cristo. Dez viagens diárias, das 9h30 às 16h50, a partir do Vieux Port. 10,10 euros por cabeça, mais 5 euros pela entrada na fortaleza (3,50 estudantes, e menores de 18 anos não pagam).

Alcatraz
Quase não há colina em São Francisco de onde não se aviste a ilhota de Alcatraz, ocupada para ser base militar e transformada em presídio de segurança máxima entre 1934 e 1963. Abrigou em sua cela Al Capone (1899-1947), o vilão dos vilões americanos do século XX. De 1969 a 1971, ocupada por índios de várias tribos (sioux, cherokee, mohawk), hoje é o mais frequentado point turístico de São Francisco. Ferry boats fazem o percurso em 15 minutos, saindo do Pier 33 de Fisherman Wharf de meia em meia hora, entre 9h30 e 17h20 (exceto no inverno. Tíquetes entre 38 e 27 dólares (crianças até 11 anos).

Ilha Grande, Angra dos Reis
Para lá a República gostava de enviar os dissidentes, na ditadura Vargas e, depois, na dos militares de 1964. Graciliano Ramos construiu em torno do cenário ambíguo de terror e de beleza o pungente Memórias do Cárcere. Luiz Carlos Prestes e Fernando Gabeira também foram hóspedes involuntários. Na fase pós-política, assistiu, em 1986, à fuga do traficante Escadinha, resgatado de helicóptero em façanha hollywoodiana. O presídio foi implodido em 1994, mas prédios anexos e o portal “Colônia Penal Candido Mendes” continuam lá. Chega-se por trilha que sai da Vila do Abraão, ou por outra, deslumbrante, a partir da Praia da Parnaioca.

Auschwitz-Birkenau
A imagem mais contundente do horror nazista contra judeus e comunistas conservou no seu portal a inscrição carregada de fúnebre cinismo: Arbeit Macht Frei, ou “O Trabalho Liberta”. Ali morreu Anne Frank (ao todo, 1,1 milhão de judeus) e conseguiram sair com vida Primo Levi, Elie Wiesel, Simone Veil e Irme Kertész. Transformado em memorial em 1947, fica no sul da Polônia, a 35 quilômetros de Katowice e a 68 de Cracóvia, de onde ônibus turísticos partem para essa visita de arrepiar. Aberto todos os dias, exceto aos domingos. Os tours são em grupo e custam 45 zlotich para adultos (15 dólares) e 35 (12 dólares) para estudantes (headphone incluído).

Sing-Sing, estado de Nova York
As celas originais, de 1825, não são mais usadas e podem ser visitadas, embora o presídio de Ossining, na margem direita do Rio Hudson, a 50 quilômetros de NY, ainda abrigue hoje, com rigor de segurança máxima, perto de 1,7 mil detentos. Ali, em junho de 1953, no calor da paranoia macarthista, foi executado na cadeira elétrica, acusado de espionagem e traição, o casal Ethel e Julius Rosenberg. Em meio à barbárie, uma doce cena em Sing-Sing, ainda que ficcional: a visita que Holly Golightly (Audrey Hepburn, em Bonequinha de Luxo, de 1961) faz ao mafioso Salvatore Sally Tomato. O Department of Correctional Services do estado de Nova York leva até 30 dias para fornecer  licença para a visita.

Torre de Londres, Inglaterra
Nobres, prelados, literatos, espiões e até crianças (como os dois filhos do rei Eduardo IV, encarcerados pelo cruel tio, Ricardo III) sucumbiram, por nove séculos, à danação da Torre, da qual quase ninguém saía vivo. Era a masmorra vip da monarquia. Para lá Henrique VIII despachou seu chanceler, Sir Thomas More, que desafiou a decisão do rei de se casar com Ana Bolena e romper com o papado. Ali também aguardou o momento de ser decapitada, mil dias depois, a própria Ana Bolena, a pretexto de adultério e alta traição. Visitas todos os dias, das 9 às 17h30 (aos domingos e segundas abre uma hora mais tarde). Adultos, 21,45 libras (72 reais) e crianças, 10,75 (36 reais).