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Número 758, Julho 2013

Economia

Sistemas financeiros

A hegemonia das finanças

por Delfim Netto publicado 23/07/2013 09h09
Os sistemas financeiros tomam conta não apenas do setor produtivo, mas do próprio sistema político: eles elegem seus representantes e organizam as maiorias parlamentares que sustentam o Poder
sistemas financeiros

Os sistemas financeiros tomam conta do sistema político, elegem seus representantes e organizam maiorias parlamentares que sustentam o Poder

A economia mundial está em retração, e o Brasil enfrenta as consequências da inserção neste mundo que está a diminuir. As maiores economias continuam sob os efeitos da crise financeira de 2008, e seus desdobramentos europeus, inclusive as duas primeiras do ranking. Os Estados Unidos, após amargar quatro anos com níveis recordes de desemprego, iniciaram uma tímida recuperação, mas crescem menos do que se esperava e ainda graças a doses maciças de “soro monetário” na veia...


A China, ao completar três décadas de desenvolvimento espetacular, começa a lidar com taxas decrescentes de crescimento. Prepara-se para o “doloroso ajuste”, um ritmo de PIB de “apenas 7%”. A “queda” foi justificada filosoficamente pelo presidente Zhou Xiaochuan, do Banco Central chinês: “Há muitos fatores instáveis e incertos e bastante pressão descendente sobre a economia...” Na Europa, onde a crise continua a dizimar empregos e governos, somente a Alemanha cresce, mas muito pouco.


O Brasil sofre os efeitos da destruição de economias europeias, antes prósperas e tradicionais parceiros e que deixaram de importar. Perdas de comércio também ocorrem na América Latina, onde estão importantes compradores de nossos produtos e que igualmente sofrem os efeitos da desaceleração mundial. Seria muito bom se pudéssemos estimular um aumento das exportações para ajudar o nosso desenvolvimento, mas a realidade é que elas têm um grande problema: como recuperar mercados em um mundo minguante.
Vamos crescer menos neste ano, sem poder contar com o impulso dos ventos externos. Não significa que entraremos em recessão, mas temos de melhorar os níveis de confiança entre o setor privado e o governo para tornar efetivos, finalmente, os investimentos na infraestrutura física do País, previstos no PAC.

A esperança de um PIB superior a 2% neste ano reside na possibilidade de sucesso das concessões na infraestrutura de transportes: em rodovias, estradas de ferro e na expansão das instalações portuárias, além dos leilões para a exploração do petróleo do pré-sal.
Apesar do enorme esforço de inspiração nitidamente externa para retardar a construção das hidrelétricas, especialmente o aproveitamento do potencial amazônico, as obras prosseguem: as grandes usinas vão entrar em geração em 2013 e 2014, garantindo a oferta da energia vital para o desenvolvimento.


O Brasil não está condenado à estagnação econômica. Persistem, entretanto, dificuldades a serem superadas no relacionamento entre o governo e o setor privado. Momentos de desconfiança retardam as decisões de investimento, prejudicam o ritmo do crescimento. O governo deve adotar uma ação mais enérgica para afastar a desconfiança mútua e reanimar os investimentos privados.

É perfeitamente possível mudar o estado de ânimo, já agora neste segundo semestre, com a realização de leilões inteligentes, capazes de especificar claramente o que a sociedade espera das obras de infraestrutura e que permitam que o mercado fixe as taxas de retorno dos empreendimentos. Não tenho dúvida de que nessas condições os leilões terão pleno sucesso. O momento é adequado, pois, apesar das manifestações pessimistas que ocuparam a mídia ultimamente, é reconhecido internacionalmente que durante a crise o Brasil teve um dos melhores desempenhos econômicos do mundo.


Nossa economia é exemplo de superação da crise que abalou a crença de muitas sociedades no funcionamento do sistema de mercado e da própria democracia representativa. O malfeito, que se imaginava não seria tolerado após as dramáticas lições da Grande Depressão dos anos 30, ressurgiu com força na última década do século XX e na primeira década do século XXI, quando os mercados se deixaram dominar pelas finanças.


A História mostra com clareza: com o tempo, os sistemas financeiros tomam conta não apenas do setor produtivo, como do próprio sistema político, elegem seus representantes e organizam maiorias parlamentares que sustentam o Poder. Prova disso foi o domínio do Congresso americano, tornado incapaz de decidir as medidas destinadas a controlar o sistema financeiro. Todas têm aprovação muito difícil e, depois, não se realizam.