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Número 757, Julho 2013

Sociedade

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Slogans de protesto

por Vitor Knijnik — publicado 17/07/2013 10h18
Blog do Heródoto
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Heródoto

Geógrafo e escritor grego da antiguidade. Considerado o pai da história: ciência que analisa os eventos ocorridos no passado

Samantha Pearson, colunista do prestigioso Financial Times, escreveu um artigo sobre a adoção de slogans publicitários pelos manifestantes que tomaram as ruas de diversas cidades brasileiras nos últimos meses. Segundo ela, a utilização dos temas "O gigante acordou", extraída da campanha do uísque Johnnie Walker, e do "Vem pra rua", retirado dos anúncios da Fiat, revelam sinais de consumismo excessivo e alienação política.

Entendo a surpresa da moça. Relacionamos protestos com palavras de ordem contra o establishment e não a favor dele. No entanto, como um dos mais antigos historiadores da humanidade e, porque não dizer, na qualidade de o “pai da história”, devo esclarecer que a utilização de slogans de anunciantes em protestos e revoluções não é algo novo. Não quero transformar esse post em uma aula. Mas preciso recorrer aos fatos para ilustrar minha afirmação. Vejamos.

Engana-se quem pensa que o mais famoso lema revolucionário de todos os tempos Liberté, Egalité, Fraternité (Liberdade, Igualdade e Fraternidade) tenha sido cunhado naturalmente entre a massa de plebeus que queria derrubar a realeza francesa. Nada disso. Claro que a frase serviu muito bem aos propósitos dos revoltosos. Mas ela foi vista pela primeira vez em um cartaz de uma liquidação de um grande magazine que anunciava preços iguais e fraternos para todos os itens da loja. O que, obviamente, resultava numa grande liberdade de escolha para os clientes.

O lema “paz, pão e terra”, usado por Lenin para promover a primeira fase da revolução soviética expressou com perfeição três demandas da época: a saída da Rússia da Primeira Guerra Mundial, comida para todos e a necessidade de uma reforma agrária radical. Esse simples e brilhante slogan não saiu da cabeça de nenhum propagandista marxista. Os bolcheviques o tomaram de uma campanha de um condomínio fechado que prometia paz, pão e terra aos compradores. Pois, os imensos lotes oferecidos aos burgueses se encontravam longe do centro de Moscou e ao lado de um campo de trigo.

O caso de Maio de 68 é o mais exemplar. Esse movimento talvez seja o mais profícuo em slogans. Centenas de frases de efeito foram gritadas e estampadas em muros e cartazes pelos manifestantes. Algumas delas seguem ainda hoje animando as mentes inquietas. O que pouca gente sabe é que muitos dos ditos da época foram sacados de campanhas publicitárias de produtos dos mais diversos setores da economia. "Decretado o estado de felicidade permanente." (Cerveja). “A Poesia está na rua.” (Perfume). “O sonho é realidade.” (Previdência privada). "Não mudem de empregadores, mudem o emprego da vida." (Trabalho autônomo). "A imaginação toma o poder." (Carro).

Ao historiador cabe analisar o passado e não fazer previsões, mas me arrisco a dizer que, num futuro próximo, manifestantes poderão se apropriar também das frases promocionais usadas pelo varejo. Já vejo cartazes estampando dizeres como ““imperdível, redução de tarifa já”, “pelo fim da corrupção, nem que seja em 10x sem juros ”, “queima total de estoque de parlamentares”. O ambiente é propício.

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