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Número 757, Julho 2013

Internacional

Diplomacia

Ligações perigosas

por André Barrocal publicado 26/08/2013 11h03
As estreitas relações com o agente e jornalista Farah complicam a situação do senador Molina, asilado na embaixada brasileira de La Paz
AFP
Molina

Se Morales quer asilar Snowden, tem que deixar Molina sair para o Brasil, sustenta a OEA

*Matéria publicada em 17 de julho de 2013

A embaixada brasileira em La Paz asila há mais de 400 dias o principal líder da oposição de direita ao presidente socialista Evo Morales. Alvo de processos por lavagem de dinheiro, enriquecimento ilícito e tráfico de influência, mas a se apresentar como perseguido político e sob risco de morte por acusar autoridades de corrupção e ligação com o narcotráfico, o senador Roger Pinto Molina virou um abacaxi. O Brasil sabe que o caso ganhou caráter político (o asilo afeta um governo aliado), mas quer preservar a tradição de acolher quem pede, quando há razões humanitárias. Já a Bolívia recusa-se a dar um salvo-conduto para Molina deixar o país, temendo admitir que há perseguição.

Já complexo e sem solução à vista, o caso deve ficar ainda mais delicado com uma descoberta de CartaCapital. Molina tem ligações com um jornalista norte-americano que trabalha para órgãos de inteligência dos Estados Unidos. Defensor da ideia de que o país ameaça a segurança nacional dos EUA, Douglas Farah é autor de um informe sobre a Bolívia de alucinante semelhança com um guia de como desestabilizar o governo. Entre outras coisas, sugere que os EUA deveriam afastar a Bolívia do Brasil. Se não causou ruptura, o asilo corroeu a relação. E custou o posto ao embaixador Marcel Biato, visto pelos bolivianos como alguém que tomou parte no script ianque. Biato vai para a Suécia.

CartaCapital constatou a ligação entre Molina e Farah a partir da cópia de uma solicitação de visto apresentada à embaixada norte-americana em La Paz por uma das filhas do senador em 2008. No pedido, ela diz que viajaria com o pai e que ele pagaria as despesas, indica como local de estada o endereço de uma residência de Farah e menciona o jornalista como alguém que a hospedaria ou a encontraria. A viagem, descrita como turística, seria em fevereiro de 2009.

O informe preparado por Farah, rumo ao abismo: A Bolívia sob Morales e o MAS, é de quatro meses depois. Foi feito para o Centro de Estratégia e Análise Internacional, do qual o jornalista é investigador. O Iasc, na sigla em inglês, produz estudos sobre segurança nacional e os interesses dos EUA mundo afora. Vive de doações privadas e de dinheiro recebido do governo para executar serviços secretos e especializados. O jornalista também é dono de uma consultoria em segurança nacional e terrorismo, a IBI Consultants, que se sustenta da mesma maneira.

Um dos colaboradores privados do Iasc é a Booz Allen Hamilton. Trata-se da empresa onde trabalhava o ex-agente da CIA Edward Snowden, caçado por Barack Obama por denunciar uma rede de espionagem que incluiria a Booz Allen. A caça levou o governo Obama a impor a Morales no início de julho um embaraço sem precedentes. Quatro países europeus (Espanha, França, Itália e Portugal) impediram o boliviano de sobrevoar seus territórios, porque os EUA desconfiavam que de Snowden pudesse estar a bordo do avião presidencial.

A sede do Iasc situa-se na região metropolitana de Washington, onde proliferam órgãos de inteligência. O quartel-general da CIA, por exemplo, fica a cerca de 20 minutos transitando de carro. A residência de Farah que a família Molina usaria como estada em 2009 está nas redondezas. Teria sido só coincidência o senador e a família viajarem a turismo para o quarto país mais extenso do mundo e escolherem essa região?

No informe de 2009, Farah descreve a Bolívia como integrante de um eixo que “representa uma ameaça significativa para os Estados Unidos”, insinua que a saída é a desestabilização e dá o caminho das pedras. As ferramentas tradicionais usadas pelos EUA para influenciar atores políticos bolivianos, como agências de apoio comercial e combate ao narcotráfico, não bastariam. O Brasil precisava ser levado em conta. O ministro da Presidência, Juan Ramón Quintana, é o esteio do governo Morales, pela inteligência e postura antiamericana.

O roteiro parece ter seduzido o líder da oposição. Molina botou Quintana na mira, acusando o ministro de conexão com traficantes. Aproximou-se da embaixada brasileira, onde encontrou receptividade ao minar o governo argumentando que Justiça e Ministério Público são controlados por Morales e que há perseguição política. O senador também recorreu a organismos internacionais. Na segunda-feira 8, em carta à Organização dos Estados Americanos (OEA), cobrou coerência de Morales: já que o presidente topa asilar Snowden, deveria deixar o senador sair para o Brasil.

“Pinto se converteu em porta-voz da embaixada dos EUA. O que não pode dizer a embaixada, diz este senhor”, afirmou Quintana a CartaCapital no fim de março, quando a revista foi a La Paz. Na ocasião, a reportagem tentou ouvir o senador sobre cinco processos que há contra ele por crimes comuns, mas não conseguiu. Molina estava e continua proibido de conceder entrevistas. A ordem foi dada pelo chaceler brasileiro, Antonio Patriota, após Morales e Dilma Rousseff discutirem o assunto, em fevereiro, e a presidenta aceitar o reexame do asilo.

Depois da reportagem, Molina enviou uma carta à revista reclamando que a matéria apresentava “meias-verdades e de forma tendenciosa” e ignorava as explicações de um advogado dele. Também sustentava que só era processado por manter “uma posição muito firme contra a corrupção e o narcotráfico que penetraram o governo”. De Morales.

CartaCapital tentou de novo entrevistar o senador, agora sobre as ligações dele com Douglas Farah, outra vez sem sucesso. Um advogado brasileiro contratado por Molina para atuar no Brasil, Fernando Tibúrcio, confirmou a relação entre o senador e o jornalista. Segundo ele, as duas famílias se conhecem desde os anos 70. Embora norte-americano, Farah nasceu na Bolívia. Ele é filho de missionários e Molina, pastor batista.

Em nome do senador, Tibúrcio entrou em maio no Supremo Tribunal Federal (STF) contra Dilma Rousseff. No pedido de habeas corpus para Molina tenta convencer a Corte a obrigar a presidenta a agir para que o asilo concedido em junho de 2012 tenha efeito prático. Ou seja, para que o senador possa deixar a Bolívia. Como há pedidos de prisão requeridos por promotores, ele só sairá da embaixada com um salvo-conduto a lhe garantir proteção.

Na ação, o advogado propõe ao STF algumas atitudes que poderiam ser impostas à presidenta. Dilma poderia determinar, por exemplo, que seja colocado à disposição de Molina um carro oficial da embaixada, inviolável como a própria, para o senador atravessar a fronteira. Ou invocar algum tratado internacional com poder de forçar Morales a liberar o opositor. “O senador jamais abrirá mão do asilo. Significa colocar a vida dele em risco”, disse Tibúrcio. Ele espera que a ação seja julgada em agosto, mas o relator, ministro Marco Aurélio Mello, não tem previsão de concluir o voto. Chamada a se pronunciar, a Procuradoria-Geral da República opinou contra a ação.

Para a diplomacia brasileira, o julgamento não preocupa. O importante mesmo são as negociações reservadas entre Patriota e o chanceler boliviano, David Choquehuanca. Após sinais brasileiros para tentar desfazer a sensação de uma postura anti-Morales por trás do asilo, como a lei do silêncio contra Molina, a revisão do asilo e a troca de Marcel Biato, está na hora de a Bolívia aceitar um acordo que não implique renúncia ao asilo. Pelo lado boliviano, acredita-se que o caso tornou-se insolúvel, pois o país não concorda com a saída do senador. Uma reunião de cúpula do Mercosul na sexta-feira 12 no Uruguai poria no mesmo ambiente Dilma, Morales, Patriota e Choquehuanca e seria mais uma oportunidade para algum entendimento.