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Número 757, Julho 2013

Sociedade

Culinária

Criar é humano

por Marcio Alemão publicado 20/07/2013 08h13, última modificação 20/07/2013 09h26
E constatar que a ideia foi malsucedida também. Inspirado pelos ares jordanianos, arrisquei uma pasta de bacalhau com coalhada seca. Não deu. Por Marcio Alemão
Refo

Pasta de bacalhau e coalhada: não funciona

Juntamente com uma posta enorme de bacalhau que comprei há tempos vieram pedacinhos menores que tentei aproveitar de outra maneira. Ainda inspirado pelos ares jordanianos, pensei em arriscar um cozimento nunca antes tentado, pelo menos por mim, na coalhada.

Algumas carnes, o próprio quibe (kibbi bi laban) e certo tipo de massa muito semelhante ao capeletti (shishbarak) são feitos dessa maneira e se mostram interessantes.

Coalhada - fresca, claro, alho, os pequenos nacos e fogo baixo. Sempre vale repetir que o bacalhau pede cozimento breve. Além do ponto pode ser usado como estopa ou peso de papel orgânico.

Abro ligeiro parêntese: tenho feito contas. O meu tempo de vida, o que ainda tenho para preservar em termos de órgãos vitais, talvez não venha a ser prejudicado demais se eu abrir mão dos cada vez mais feiosos orgânicos e voltar aos malignos hortifrúti normais, como fiz durante quase toda a vida.

Deixo os tomates de lado, posto que de fato exalam veneno durante o cozimento. No mais, está cada vez mais difícil ficar convencido de que aquelas horrendas, deformadinhas e pequenas cebolas orgânicas me farão mais feliz do que as lindonas que costumava comprar na feira. Claro que me dirão alguns: mude de fornecedor. E eu responderei: vou pensar nisso, obrigado pelo conselho. Enquanto isso, volto à feira.

E lá na panela permaneceu o bacalhau.

O aroma não posso dizer que tenha me cativado.

Enquanto olhava, pensava, e por que não uma pasta de bacalhau com coalhada seca?

Cheguei ao fim do cozimento, retirei as postas e provei uma lasca. Não me animei, mas a ideia da pasta ganhou adesão maciça de meus neurônios.

E fomos ao processador com o bicho feito em lascas, sem as espinhas. Azeite extravirgem, um tanto. E uma quantidade de coalhada seca não muito grande. Coisa que bastasse para uma boa liga. Tudo processado, amalgamado e uma colher pequena que apanhou uma amostra me daria o veredicto.

Anote, pois: esqueça. Não funciona. Não diria que ficou horrível, mas não vejo motivo para desperdiçar mais uma vez uma boa coalhada, um bom bacalhau e produzir uma medíocre pasta.

A acidez que eu  imaginei ser bem-vinda ao peixe não foi. Semana que vem compenso com uma boa receita.