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Número 756, Julho 2013

Economia

Opinião

Duas décadas

por Delfim Netto publicado 10/07/2013 08h33
É preciso prestar homenagem à equipe de economistas que conduziu o Plano Real e acompanhou a sua implantação
Antonio Cruz/ABr
Plano Real

Muitos sofrimentos de hoje são resquícios do fato de não termos terminado o real, e o problema do desequilíbrio fiscal continuar

Já me referi aqui, neste espaço, ao Jornal Gente que vai ao ar na Rádio Bandeirantes às 8 horas da manhã, diariamente, programa que completou meio século de bons serviços prestados à população de São Paulo sempre sob o comando de José Paulo de Andrade e participação de Salomão Ésper, dois dos mais bem informados e intelectualmente preparados profissionais da imprensa brasileira. A equipe recebeu em anos recentes o reforço de Rafael Colombo, jovem e igualmente competente jornalista. Perdeu no fim de 2012, infelizmente, o concurso de Joelmir Beting, o mais respeitado comentarista de economia de nossa geração, ícone da mídia.

Tenho muito orgulho de fazer este registro porque nas segundas-feiras participo do Band-Gente, o que me dá a oportunidade de falar dos problemas da economia, como os mais recentes – que afloraram nos movimentos de rua nas duas últimas semanas –, ou para lembrar o aniversário do Plano Real, cujos objetivos, após duas décadas, ainda não foram plenamente alcançados.

Começando pelo lançamento do plano, em 1994, no governo do presidente Itamar Franco: a economia brasileira vivia a ameaça de uma hiperinflação, após o fracasso de várias tentativas de estabilização, quando uma equipe de brilhantes especialistas obteve do presidente o suporte para um plano muito bem estruturado. Esse conjunto de iniciativas permitiu, durante quatro meses, nivelar todos os preços e congelar os salários, com a introdução de uma nova moeda, a Unidade Real de Valor (URV), invenção estupenda que na prática mimetizava as condições de uma hiperinflação sem ter de sofrer os seus terríveis efeitos.

O presidente Itamar convenceu-se de que um plano dessa natureza precisava de uma comunicação absolutamente transparente, pois seu êxito dependia da compreensão e incondicional apoio da população. Ele deu suporte total, primeiro ao ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, e depois ao seu substituto, Rubens Ricupero. Apesar de alguns percalços iniciais, a comunicação foi muito bem conduzida. Decisivo também foi garantir 5% de superávit fiscal no último ano do governo Itamar.

É preciso, também, prestar as homenagens à equipe dos economistas (cuja reputação esteve em jogo e felizmente estão aí, todos vivos) que conduziu o preparo do plano e acompanhou a sua implantação: a estabilização produzida pelo Real dominou todos os planos antecessores, como o mexicano, o israelense ou o argentino.

O que faltou, depois da estabilização, foi não continuar com o programa até alcançar o objetivo final: acabar com o déficit fiscal. Não é nem um pouco agradável constatar que muita coisa que estamos a sofrer hoje seja um resquício do fato de não termos terminado o Real, e o problema do desequilíbrio fiscal continuar.

Não acredito que esses movimentos de rua tenham a ver com outras coisas mais importantes do que o fato de que os governos não atenderam às prioridades prometidas, e que o povo queria ver respeitadas. Vejamos o caso concreto da prefeitura de São Paulo: há 20 anos, o gasto com o pessoal no governo era menos de 20% do custeio global. Hoje é mais de 40%. O que existe de mais grave, então, é um defeito de gestão gigantesco no uso do dinheiro público.

Não é só no estado de São Paulo que os prefeitos se queixam de que a cidade está insolvente. Por que as prefeituras estão insolventes? Porque as administrações foram perdendo o controle sobre as despesas e fazendo dívidas.

Pior é que os recursos não se destinam a investimentos para atender, em respeito ao voto do cidadão, às prioridades prometidas nas eleições. Pesquisa divulgada em 3 de julho, a primeira do IBGE com dados sobre a gestão básica dos transportes públicos nos 5.565 municípios brasileiros, retrata a enormidade daqueles defeitos de gestão a que me referi: apenas 3,8% das cidades tinham, em 2012, um plano municipal de transportes, responsável por organizar e administrar os serviços em nível local. Mas 74,3% dos municípios (4.133) declararam possuir uma empresa pública, uma secretaria ou uma autarquia (!) para cuidar do setor...

Provavelmente – acredite quem quiser – são repartições ocupadas por “voluntários”, sem ônus para o Erário municipal...

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