Número 755, Julho 2013

Cultura

Cinema

Voo cego

por Orlando Margarido — publicado 29/06/2013 08h52, última modificação 29/06/2013 12h25
Novo filme de Pedro Almodóvar, Os Amantes Passageiros, traz uma sátira debochada à crise na Espanha, por meio de um voo de Madri ao México
Divulgação
Voo cego

Apertem os cintos, o diretor sumiu

Os Amantes Passageiros
Pedro Almodóvar

Para onde vai a Espanha em sua crise, e numa concepção mais ampla segundo Pedro Almodóvar, a península, incluindo Portugal? Se depender de seu mais novo filme, Os Amantes Passageiros, estreia de sexta 28, temos uma resposta banal e óbvia, fundada numa sátira debochada e sem ambição de se aprofundar. Mais complexo é questionar para onde vai o cinema do espanhol desde ao menos A Pele que Habito, trabalho devedor de algum excesso, que agora assume a característica por completo. O diretor anunciou querer apenas saber se poderia se exercitar ainda na comédia, o que é um preceito tão duvidoso no geral, mas particularmente feliz em algumas raras piadas.

Reconheça-se, no entanto, a representatividade do formato da trama. Em um voo de Madri para o México, o avião apresenta avarias técnicas e não poderá pousar com segurança. Enquanto os passageiros da ala econômica são postos a dormir por soníferos dados pela tripulação, na executiva alguns poucos seguem a cultivar os prazeres do sexo e das drogas. Estão ali um empresário corrupto em fuga, uma estrela do cinema pornô chantagista, um matador de aluguel, uma virgem em ebulição, um casal de noivos etc. É notória a significação de uma nação e seu momento de declínio. Mas não se passa mais interessante porque Almodóvar nos faz crer que nas atitudes está um humor natural que por fim os teria levado até a bancarrota. Faria isso, talvez antes, com mais sarcasmo e sofisticação, sem parecer um arremedo de sua ótima fase dos anos 1980.

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