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Número 755, Julho 2013

Cultura

Literatura

Um mundo sem glórias

por André de Oliveira — publicado 08/07/2013 10h35
Os 50 anos de Malagueta, Perus e Bacanaço, de João Antônio
Arquivo da família
Joao Antonio

João Antonio foi o cronista do submundo

50 anos, a certa altura da noite de autógrafos de seu livro de estreia Malagueta, Perus e Bacanaço, rodeado por familiares e intelectuais como Sérgio Milliet e Ricardo Ramos, João Antônio apontou à amiga Ilka Brunhilde Laurito a presença de algumas mulheres. Eram prostitutas da Boca do Lixo paulistana, inspiração para sua obra e convidadas à estreia. O livro lançado ali, hoje editado pela Cosac Naify, renderia a João Antônio dois prêmios Jabuti, o de melhor volume de contos e de autor revelação. Embora tivesse passado a maior parte da vida no Rio de Janeiro, o escritor que ecoou a fala e a vida das ruas viu-se alçado à condição de romancista de São Paulo.

De origem humilde, nasceu em Osasco, no bairro de Presidente Altino, em um lugar conhecido como Morro da Geada. Lá entrou em contato com uma vida ainda rural de São Paulo, transcrita em seus textos memorialísticos. Mas o que marcou seu livro de estreia e sua produção posterior foi o que viu na Lapa, Pompeia e outros bairros da zona oeste paulistana. Suas histórias falam de guardadores de carro, jogadores de sinuca, bandidos, prostitutas, policiais desonestos, leões de chácara em ambientes soturnos e noturnos a lutar pela sobrevivência. Seu personagem não é o Leonardo Pataca de Memórias de um Sargento de Milícias ou o Macunaíma, antes um malandro sem alegria.

Os contos estavam quase totalmente concluídos em 1960, quando um incêndio causado por um ferro de passar destruiu a casa em que João Antônio morava com a família. Em meio a seus pertences, foram-se os originais do livro. Ele recuperou a maior parte das histórias, mas durante três anos reescreveu o conto-chave e homônimo do livro. Dele, o escritor só tinha preservado trechos enviados à amiga Ilka. Malagueta, Perus e Bacanaço vivem a noite de São Paulo atrás de um jogo de sinuca. Sua trajetória é a vida que João Antônio presenciava na cidade. “O que se passa com eles e dentro deles, o que se passa na cidade é o que este aqui quis contar”, escreveu o autor, cuja sonoridade aproxima o leitor de um mundo sem glórias.