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Número 754, Junho 2013

Cultura

No rastro da lira cretense

por Oliviero Pluviano — publicado 27/06/2013 08h41, última modificação 27/06/2013 10h01
Em Anogeia, aos pés do monte Psiloritis, ouvindo os Xylouris ao som do alaúde de Giorgos, um anjo
Oliviero Pluviano
Xylouris

Tempo. A irmã dos Xylouris, tia de Giorgos, evoca-os na sua casa para todo o sempre

Este artigo tem o sabor de uma matéria ao vivo. Escrito na noite passada em um hotel de Rethymno, antiga cidade veneziana da ilha grega de Creta. Conheci muitas lindas praias: de Balos, para mim uma das mais bonitas do mundo, a Preveli, uma faixa de areia no fim de um cânion roído por um pequeno córrego cercado por uma floresta de palmeiras. Mas o que mais me impressionou até agora foi o interior montanhoso, salpicado de aldeias perdidas entre rochedos, nogueiras, mosteiros ortodoxos e cabras, onde moram os cretenses de outrora, bem diferentes do novo grego do litoral, informatizado como todos nós e acostumado ao turismo de massa.

No rastro da “lira cretense”, espécie de violino de três cordas que produz sons desde a Idade Média só por aqui, cheguei até Anogeia, não muito longe do sopé do monte Psiloritis, que, com seus 2.456 metros de altitude, é o maior pico do arquipélago, constantemente açoitado pelo meltemi, o vento violento do norte, a assolar todo o Mar Egeu.

Anogeia é conhecida entre gregos como “o vilarejo do diabo”, protagonista ainda hoje de tiroteios com a polícia, por conta de cultivos clandestinos de maconha e de rixas familiares. Heroína da revolta contra os turcos no século XIX, foi queimada pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial em sinal de vingança pela ajuda dada por seus habitantes aos indomáveis guerrilheiros cretenses: as SS mataram todos os homens adultos no raio de um quilômetro.

Do atroz sofrimento nasceu, contudo, uma flor esplendida: a pequena Anogeia deu origem a todos os músicos mais famosos de Creta, do inesquecível Nikos Xylouris, a seu irmão (de cabelo desgrenhado e barbudo, com uma voz sombria à la Tom Waits) Psarantonis, e também a seu sobrinho Giorgos Xylouris, um anjo nas cordas do alaúde.

Esta foto foi tirada na casa anogeiana dos Xylouris, transformada em um templo por sua irmã, no centro da imagem. Nikos teve uma carreira perturbada como cantor e tocador de lira, sempre com o sariki na cabeça (uma espécie de bandana triangular preta, adornada por algumas “gotas”, que representam o choro pelos antepassados mortos) e acompanhado pelo alaúde (lagouto), o bandolim, a askompantoura (gaita de foles cretense), o tamburlo (percussão), e por hábeis dançarinos com botas negras.

Nikos foi a pedra no sapato da ditadura dos coronéis gregos (1967-1974) como maior intérprete do rizitiko e das mantinades, espécies de canções populares nascidas nas montanhas de Creta, semelhantes àquelas dos nossos repentistas nordestinos, mas de caráter mais político e vin­culado à  liberdade. Nikos morreu em 1980 com apenas 43 anos por causa de um tumor nas cordas vocais, mas sua figura ainda está muito viva entre todos os helenos.

Embora seja difícil indicar músicas escritas em grego, procurem no YouTube os “mix” de Nikos, Giorgos Xylouris e de Psarantonis. Este, com 71 anos, é um intérprete único, o mais excêntrico de todos (baixem I Tigris com Giorgos e Niki, sua filha, que é uma maravilhosa cantora), que hoje, como o nosso João Gilberto, sai no meio de um show se a plateia não estiver no mais completo silêncio.