Você está aqui: Página Inicial / Revista / Sorria, você está sendo espionado / Velho Mundo, Novo Mundo
Número 753, Junho 2013

Sociedade

Velho Mundo, Novo Mundo

por Claudio Bernabucci publicado 14/06/2013 19h33
Os estereótipos nacionais são inconsistentes. Novos são os povos da Europa e a distribuição de renda no Brasil. Velhas, a prosopopéia classista da elite brasileira e a política neoliberal alemã.

Há três anos moro no Sul do mundo – “Cidade Maravilhosa, Brasil” – e consigo olhar de outro ponto de vista, até com maior liberdade, o que acontece em nosso planeta cada vez menor. O estereótipo com que me defronto mais frequentemente é o de “velho mundo e novo mundo”. Encarnado nas privilegiadas situações da zona sul carioca ou dos bairros nobres de São Paulo, esse lugar-comum soa profundamente inadequado, quase sempre hipócrita.

Não observo nada de “novo” nas condições de riqueza injustificada, exploração econômica ou separação de classes no Brasil que já não tenha conhecido no chamado “velho mundo”. Com maior ou menor decência, e mutatis mutandis, vejo o mesmo conservadorismo para manter as diferenças, as mesmas dinâmicas socioeconômicas e o mesmo estilo de vida. Em suma, para as minorias privilegiadas do mundo inteiro, o importante é “que tudo mude para ficar sempre igual”, como escreveu o siciliano Tomasi di Lampedusa no Il Gattopardo, obra-prima da literatura.

Quando, por várias décadas, morei no Norte do mundo – Cidade Eterna, Itália –, confesso que às vezes caía vítima de certos esquematismos do pensamento, comuns em quem só vê a realidade de seu próprio ponto de vista, pouco sensível a história, cultura, sensibilidades e opiniões dos outros: o tão criticado “eurocentrismo”, doença espiritual que ainda afeta a grande maioria de meus conterrâneos continentais. Novo mundo e velho mundo, países pobres e países ricos... são dualismos fáceis de conceber, mas tendem a gerar receitas baratas.

Em poucos anos toda essa parafernália degringolou-se surpreendentemente, não só a meus olhos de homem mais velho e – como morador de outra latitude –, ao mesmo tempo, mais radical e cauteloso, diante, que é o que importa, da sensibilidade de massas cada vez maiores no mundo inteiro. “Novos” hoje me parecem os milhões de pobres da velha Europa e todos os que combatem a injusta doutrina neoliberal, e também os homens e mulheres de boa vontade, como a maioria dos brasileiros, que apostam em desenvolvimento e redistribuição para resgatar milhões de excluídos. “Velha” é a prosopopeia classista de certa elite brasileira, que pensa viver no melhor lugar do mundo e o descreve como a Cloaca Maxima. Assim como é ferozmente arcaica a política econômica da Alemanha conservadora, onde as vozes mais exaltadas elevam-se contra “os pecadores do Sul endividado”. Os exemplos da inconsistência de antigos estereótipos e visões do mundo, assim como de novas contradições globais, são inúmeros.

Aqui como ali, os políticos incautos (mas também há os sábios e honestos!) vangloriam-se de seus efêmeros recordes internacionais: por exemplo, com um PIB nesta ou naquela posição do ranking, em homenagem aos velhos nacionalismos, hoje mais inadequados do que nunca à complexa política planetária. Na realidade, as estatísticas frias dos números escondem situações bem mais intricadas, em que os “países ricos” conhecem hoje o processo de empobrecimento mais rápido e a acumulação de renda mais acentuada dos últimos cem anos. E os chamados “países pobres”, ou “Terceiro Mundo”, ou mais elegantemente “os emergentes”, mantêm a histórica primazia da desigualdade, diante das imensas fortunas acumuladas pelas elites na última década de vigoroso crescimento.

O jogo fácil ajudou as classes dominantes a se esconderem por trás dos velhos clichês, mas hoje o rei está nu. Sem dúvida, algumas simplificações na definição dos processos históricos são necessárias, mas as que citamos devem ser contextualizadas à luz dos processos políticos mais recentes. É hipocrisia dos donos do poder mundial perseverar em estereótipos que alimentam divisões anacrônicas.

A globalização enriqueceu como nunca as oligarquias e os favorecidos do mundo inteiro, de norte a sul, e, com poucas exceções, facilitou o esmagamento dos pobres de qualquer matiz. A velha ordem mundial é tenaz e seus paladinos, poderosíssimos, mas precisamos ter uma clara visão de que a batalha para equilibrar as injustiças é mundial. E que os ricos são conectados e aliados entre si, enquanto os pobres são divididos e segregados nas apertadas fronteiras nacionais. Por isso, é vital fortalecer processos mundiais que devolvam nobreza à política. E que novas alianças forjem um internacionalismo autêntico, única esperança de que o mundo novo não seja só utopia do século passado.