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Número 752, Junho 2013

Internacional

Análise

Turquia: O melhor atalho para o caos

por Gianni Carta publicado 08/06/2013 10h13, última modificação 12/06/2013 10h31
A população ocupa as ruas contra as duras leis islâmicas e a fome de poder do primeiro-ministro Recep Erdogan
Turquia

As manifestações no Parque Gezi foram reprimidas com violência. "Extremistas", acusa o premier

Tudo começou de forma pacífica. Já no fim do mês de maio, manifestantes dormiam debaixo de tendas para protestar contra a construção de um centro comercial e uma réplica de um quartel otomano em um dos raros parques de Istambul, o de Gezi, adjacente à Praça Taksim. Na sexta-feira 31, a polícia entrou, porém, em ação. Fechou as portas do parque e, munida de gás lacrimogêneo e canhões d’água, atacou com brutalidade os manifestantes.

Segundo o primeiro-ministro, Recep Erdogan, responsável pelo projeto e ex-prefeito de Istambul, os manifestantes são “extremistas”. E haveria potências estrangeiras envolvidas. Em seguida, Erdogan, líder do Partido de Justiça e do Desenvolvimento (AKP), sigla de centro-direita e com sólidas raízes islâmicas, saiu para um tour pelo Magrebe, sinal de que, no seu entendimento, os violentos acontecimentos seriam efêmeros.

Não foi o caso. Na quinta-feira 6 o cômputo geral eram quatro mortos, milhares de feridos e centenas de presos. As manifestações, embora pacíficas na noite de quarta-feira 5, continuavam e haviam se esparramado pelo país que, até então, servira de modelo a outras nações árabes como a Tunísia e o Egito, liderados por islamitas da Irmandade Muçulmana. Desde 2002, a Turquia tem conseguido conciliar democracia com uma economia liberal e um governo moderado islâmico. “Vários oficiais norte-americanos, entre eles a ex-secretária de Estado Hillary Clinton, em numerosas ocasiões referiram-se à Turquia como o país modelo para as emergentes democracias árabes”, diz o cientista político Tolga Demiryol, da Universidade de Istambul. Os recentes eventos, diz o acadêmico, “mancharam essa imagem da Turquia, democracia exemplar”.

Houve tentativas de compromisso por parte de aliados de Erdogan. Durante a ausência do premier, o presidente Abdullah Gull, também filiado ao AKP, e o vice-primeiro-ministro, Bulent Arinc, disseram que o povo tinha direito de se manifestar pela manutenção do parque. O vice-premier chegou a pedir desculpas pela brutalidade da polícia. Acreditava- -se em um consenso entre Ancara, a capital, e os manifestantes.

De volta à Turquia, Erdogan deixou claro, no entanto, que seu projeto de construção de um centro comercial permanece inabalado. “O ódio dos manifestantes voltou-se, após esse ciclo de violência, contra Erdogan”, observa Demiryol. O AKP tenta regular a vida dos cidadãos. E, como me diz uma velha fonte, “Erdogan sempre teve uma agenda islamista, e agora quer os poderes de um sultão”. Ou de um Atatürk.

Mustafa Kemal Atatürk, vale lembrar, foi o fundador da República da Turquia, em 1923, surgida após a queda do Império Otomano. O militar estabeleceu que sucessivos governos deveriam ser seculares. E as elites kemalistas, apoiadas pelas Forças Armadas, seriam responsáveis em manter esse secularismo. Por essas e outras, ao vencer as primeiras eleições legislativas em 2002, Erdogan, criado em um bairro islâmico e preso no passado por recitar poemas de conteúdo fundamentalista, apresentou-se como um islâmico moderado e favorável a um sistema democrático. Habilidoso, conseguiu enfraquecer o poder dos militares e aumentar aquele dos policiais.

Dizer que Erdogan quer ser um sultão ou um Atatürk islamita seria um pouco anacrônico. Ele quer ser presidente. Depois de ocupar o posto de premier por três vezes, ele agora poderá, em 2014, candidatar-se a presidente. Com esse fim, pretende realizar uma reforma constitucional e transformar um regime político parlamentarista em presidencialista. O presidente na Turquia tem poderes limitados. Há, porém, obstáculos. De saída, o atual presidente não é subserviente. Diz Demiryol: “Gul tornou-se um político independente, uma figura forte. Acumulou muito capital político como presidente e adotou medidas moderadas durante crises”. E, assim como vários líderes políticos de outras legendas, não seria contra transformar o sistema político sem maiores deliberações.

Na verdade, o processo constitucional para a reforma do sistema político encontra-se em um impasse. A comissão parlamentar responsável por uma nova Carta não conseguiu produzir um rascunho até o fim de 2012. Erdogan busca outros meios para se tornar presidente com poderes de sultão. A acima citada fonte anônima bem informada conta que o primeiro-ministro deseja dar maior liberdade aos curdos e, por isso, negocia com Abdullah Öcalan, o líder do grupo étnico em uma prisão turca. O objetivo de Erdogan é claro: obter votos dos parlamentares curdos para a formação de um regime político presidencialista.

Caso o premier consiga vencer a partida de xadrez, poderá, como temem numerosos turcos, islamizar o país. E, quem sabe, até impor a Sharia. Erdogan baniu, por exemplo, a venda de álcool entre 22 horas e 6 da manhã. Nas cercanias de escolas e mesquitas, a venda de álcool é proibida. O beijo público também está vetado, assim como a venda de pílulas de aborto. O governo recomenda a cada casal ter ao menos três filhos. Protestos como aqueles na Praça Taksim são proibidos. A mídia é censurada. Intelectuais são presos.

Ao contrário das revoltas na Tunísia e no Egito, na Turquia os protestos reivindicam “direitos” e não “empregos”. O país deve crescer 4% neste ano, apesar da crise na Europa. O regime pagou sua dívida ao Fundo Monetário Internacional e ofereceu 5 bilhões de dólares à instituição para ajudar a resolver a crise na Zona do Euro. Diz, no entanto, Demiryol, a pujança econômica beneficia uma minoria. “Além disso, o premier usa os indicadores econômicos como fonte para legitimar sua política.” Se Erdogan levar a melhor, a Turquia mergulhará no caos.