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Número 752, Junho 2013

Cultura

Cinema

Apóstolo da realidade

por José Geraldo Couto — publicado 10/06/2013 08h20
Cesare Zavattini (1902-1989), diretor italiano que iniciou a carreira no direito e no jornalismo, passou a advogar um "cinema para o homem" e escreveu clássicos absolutos do neorrealismo italiano
AFP
Cesare Zavattini

Cesare Zavattini. Por mais espinhos no lugar do escapismo

"A realidade é rica. Basta saber observá-la.” Esse foi o mote seguido por Cesare Zavattini (1902-1989), principal mentor e roteirista do neorrealismo italiano. Inimigo do escapismo dos “filmes de telefone branco” da era fascista, ele julgava que o cinema tinha errado ao seguir mais o caminho fantasioso de Méliès do que o dos Lumière, “semeado com os espinhos da realidade”.

Nascido em Luzzara, estudou Direito em Parma, onde iniciou a carreira de jornalista. Foi também professor de colégio e autor de histórias para crianças antes de escrever seu primeiro roteiro, para o filme Darò un Milione (1935), de Mario Camerini. Com o fim da guerra, em 1945, passou a advogar um “cinema para o homem”, mergulhado na vida das pessoas do povo, que ele prenunciava desde 1942, em roteiros de filmes como Na Frente Há Lugar (Mario Bonnard) e O Coração Manda (Alessandro Blasetti).

Dos 113 filmes que escreveu, 26 foram para Vittorio De Sica, entre eles clássicos absolutos do neorrealismo, como Vítimas da Tormenta (1946), Ladrões de Bicicletas (1948) e Umberto D (1952), pelos quais foi indicado ao Oscar de roteiro. Escreveu também comédias para Dino Risi, melodramas para Visconti e policiais para De Santis e Damiani. Em 1982 ganhou um Leão de Ouro em Veneza pelo conjunto da obra.

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Milagre em Milão (1951)
Totò (Francesco Golisano), menino criado por uma velha que o encontrou em sua horta e, depois, num orfanato, torna-se líder de um grupo de sem-teto na Milão do pós-Guerra. Com eles forma uma favela em cujo terreno encontram petróleo. Drama social de fundo cristão da dupla De Sica-Zavattini, baseado em romance deste.

Umberto D (1952)
O funcionário aposentado Umberto Domenico (Carlo Battisti) vive em um quarto de pensão com seu cachorro. Quando a dona da pensão (Antonia Belloni) o pressiona para pagar o aluguel atrasado, ele tenta vender seus livros e o relógio de pulso. Obra-prima da dupla De Sica-Zavattini, radicalizando a ênfase nos tempos mortos.

Vítimas da Tormenta (1946)
Na Roma do pós-Guerra, dois garotos que vivem de engraxar sapatos (daí o título original Sciuscià, corruptela de Shoeshine) se envolvem com o mercado negro e uma gangue de achacadores. Primeiro grande êxito da dupla De Sica-Zavattini e um dos marcos iniciais do neorrealismo, foi indicado ao Oscar de roteiro.